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Gaúchos criam Cidade do Agro para transformar região após enchentes

Agro 360 desenvolvimento 20/06/2026 08:46 Gustavo Lustosa (AgFeed) agfeed.com.br

Após as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, produtores rurais e empresários se uniram para criar a Cidade do Agro, um grande centro que vai juntar agricultura, ciência, educação e negócios na cidade de Capão do Leão. O projeto quer ajudar a região sul do estado a se desenvolver de forma mais moderna e diversificada.

Era maio de 2024 quando o Rio Grande do Sul vivia uma das maiores tragédias climáticas da sua história. As imagens de cidades inundadas se espalhavam pelo país, milhares de pessoas precisaram deixar suas casas e o aeroporto internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, aparecia completamente debaixo d'água no noticiário.

Naquele momento, um grupo de produtores rurais, engenheiros e empresários do sul gaúcho se mobilizou para fazer algo que conhecia bem: lidar com água.

  • O projeto Cidade do Agro surgiu após as enchentes de 2024, quando produtores ajudaram a bombear água do aeroporto de Porto Alegre.
  • Será construída em uma área de 800 hectares em Capão do Leão (RS), perto de Pelotas.
  • Vai reunir agropecuária, pesquisa, universidades e empresas em um só lugar, funcionando o ano inteiro.
  • Terá um instituto sem fins lucrativos para educação e inovação e uma parte comercial para gerar renda.
  • A região sul do RS é conhecida pelo arroz e pela pecuária, mas quer se modernizar e atrair novos negócios.

Acostumados a conviver diariamente com sistemas de irrigação e drenagem nas lavouras de arroz, eles organizaram uma força-tarefa improvisada. Primeiro, ajudaram na construção de barreiras de contenção em Pelotas, utilizando sacos e big bags preenchidos com areia. Depois, foram chamados para uma missão ainda mais simbólica.

Bombas de drenagem usadas rotineiramente nas áreas de arroz da região foram levadas para Porto Alegre para retirar a água que havia tomado o Salgado Filho. A operação ficou conhecida como Projeto Drenar.

A pergunta que deu origem ao projeto

Para Lauro Ribeiro, produtor rural, engenheiro agrícola e diretor da Agropecuária Canoa Mirim, que participou da iniciativa, a experiência deixou uma inquietação. Se o setor agropecuário havia sido capaz de se mobilizar tão rapidamente diante de uma emergência histórica, por que não conseguia fazer o mesmo em tempos de normalidade para enfrentar problemas crônicos de desenvolvimento da própria região

A pergunta deu origem a uma ideia mais ambiciosa, que agora começa a dar seus primeiros passos no mundo real: a Cidade do Agro.

O projeto pretende criar, no município de Capão do Leão (RS), próxima a Pelotas, um novo ecossistema voltado a conectar agronegócio, pesquisa, inovação, educação, negócios e desenvolvimento regional.

O que é a Cidade do Agro

A proposta é construir uma plataforma permanente de desenvolvimento para a metade sul do Rio Grande do Sul, região que historicamente concentrou sua economia na pecuária e no arroz irrigado e que, apesar dos avanços recentes em culturas como soja e milho, ainda apresenta menor nível de diversificação e modernização em comparação com outras áreas do estado.

"A filosofia começou ali: se conseguimos nos mobilizar tão rápido para enfrentar uma tragédia, por que não fazer algo permanente e deixar um legado para a região", disse Tuíra Barcellos, engenheira agrônoma e uma das integrantes da equipe responsável por tirar o projeto do papel.

A Cidade do Agro ocupará uma área de aproximadamente 800 hectares pertencente à família Ribeiro. O terreno, usado com florestas plantadas de eucalipto, já começou a ser preparado para receber as primeiras estruturas.

Hoje, cinco pessoas trabalham na iniciativa: além de Lauro Ribeiro e de Tuíra Barcellos, a equipe reúne o doutor em recursos hídricos Gustavo Lima, o arquiteto Harry Caldeira e a advogada Romana Campos.

Como vai funcionar na prática

A composição multidisciplinar reflete a própria ambição do projeto. Segundo explicou a engenheira, a ideia é criar um ambiente que aproxime produtores, empresas, universidades, instituições de pesquisa, entidades setoriais e lideranças públicas e privadas. "O agro normalmente conversa com o próprio agro. Queremos furar essa bolha e criar um espaço que também dialogue com a cidade", disse Barcellos.

Até agora, a iniciativa já conta com parceiros de diversos portes. Desde gigantes e multinacionais como 3tentos, Corteva e Nutriplant, passando por empresas regionais, como Sementes Simão, Fronteira Agro, Real Agro e Agrofel, e instituições como Sebrae, Emater/RS, IRGA, Federarroz e a Universidade Federal de Pelotas.

A Cidade do Agro foi desenhada como uma estrutura de dupla camada, em que convivem uma entidade sem fins lucrativos e uma operação comercial responsável por viabilizar financeiramente o funcionamento do complexo.

No primeiro lado está o Instituto Cidade do Agro, que nasce com a missão de sustentar a espinha dorsal institucional do projeto. É ele que deverá concentrar o centro de eventos, um "museu do agro", o polo educacional e o hub de inovação. Também será responsável pela gestão de espaços compartilhados, pela articulação com universidades e centros de pesquisa e pela coordenação de atividades de formação de mão de obra.

Do outro lado, a engrenagem econômica do projeto será responsável por gerar receita a partir da ocupação e do uso do espaço. Isso inclui a comercialização de terrenos dentro do complexo industrial e logístico, a locação de escritórios e estruturas fixas para empresas, além da operação de parcelas demonstrativas e ambientes de relacionamento entre companhias do setor.

Na prática, a intenção é manter o instituto sustentado por uma operação que transforma o ecossistema em atividade permanente e não apenas em um projeto dependente de eventos pontuais.

Pesquisa e inovação no campo

A Cidade do Agro iniciou neste ano a estruturação dos primeiros protocolos de pesquisa em parceria com empresas do setor e instituições acadêmicas. A proximidade com o ambiente acadêmico é vista como um dos pilares para tentar reduzir um gargalo histórico da metade sul do Rio Grande do Sul: a dificuldade de reter talentos e transformar conhecimento em atividade econômica local.

"O objetivo é criar um ambiente em que o conhecimento não fique só na universidade ou só na lavoura, mas circule entre os dois e gere desenvolvimento real na região", afirmou Barcellos.

Outro eixo estruturante será o complexo industrial e logístico, que prevê a venda e ocupação de terrenos por empresas interessadas em se instalar dentro do ecossistema. A ideia é que parte da infraestrutura seja ocupada por indústrias ligadas ao agronegócio, armazenagem, processamento e serviços, criando um polo integrado à produção agrícola local.

Apoio a novos produtores

Outra ideia da Cidade do Agro é criar um ambiente de incubação de produtores, com foco inicial em hortifruticultura. Barcellos explicou que a proposta surgiu a partir da disponibilidade de áreas dentro do complexo e da percepção de que esse tipo de produção enfrenta barreiras mais altas de entrada, especialmente no acesso a capital, estrutura e escala de comercialização.

Os produtores usarão essas instalações dentro da Cidade do Agro para desenvolver suas atividades em um modelo compartilhado, com suporte técnico e integração à estrutura do instituto, e posteriormente acessar canais de comercialização de forma conjunta.

"HF é um segmento que exige muito investimento inicial e muita técnica. Ao criar um ambiente estruturado, conseguimos reduzir essa barreira de entrada e, ao mesmo tempo, gerar um ecossistema produtivo mais diverso dentro do projeto", disse Tuíra Barcellos.

Dentro desse ambiente também está prevista a criação de uma estação de pesquisa agropecuária, que deverá funcionar como base para desenvolvimento de estudos aplicados em diferentes culturas. A partir dela, a expectativa é aproximar ainda mais empresas de tecnologia agrícola e produtores em busca de soluções para produtividade e eficiência.

Do lado do Instituto, a ideia é receber estudantes, promover visitas técnicas e funcionar como espaço de treinamento para mão de obra ligada ao agronegócio.

Sustentabilidade financeira do projeto

A ideia, segundo Tuíra Barcellos, é estruturar essa parte do projeto de forma que ele consiga acessar diferentes frentes de fomento, sem depender exclusivamente da operação comercial da Cidade do Agro. "Por ser um instituto sem fins lucrativos, conseguimos acessar editais, programas de incentivo e linhas específicas que fazem muito sentido para o tipo de impacto que queremos gerar aqui. Isso ajuda a dar sustentabilidade para o projeto no longo prazo", afirmou.

Na parte privada, o projeto deve buscar recursos de investidores e bancos (com quem já existem conversas), mas a ideia é que a operação comercial se autofinancie.

A governança do Instituto Cidade do Agro já está em fase final de estruturação, com a definição de conselho fiscal, conselho administrativo e assembleia geral, que deverão ser formalizados antes do lançamento oficial do projeto.

A apresentação pública está prevista para 9 de julho, quando o grupo pretende reunir apoiadores, lideranças empresariais, instituições e representantes do setor para consolidar a entrada do projeto em sua fase operacional.

Segundo Tuíra Barcellos, a criação do instituto também tem uma função estratégica de longo prazo. Mesmo que a operação comercial enfrente desafios ao longo do caminho, a estrutura institucional seria capaz de garantir a continuidade da iniciativa. "Mesmo que uma parte do projeto mude ao longo do tempo, o instituto garante que a ideia central permaneça. Tudo o que entra ali é reinvestido no próprio desenvolvimento da Cidade do Agro", afirma.