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09 de agosto de 2026

Vidigal e Rocinha são os novos queridinhos do turismo no Rio

Cidades Turismo 09/08/2026 07:14 Marcos Furtado, Extra extra.globo.com

Duas favelas do Rio de Janeiro, Vidigal e Rocinha, estão entre os 20 lugares mais visitados por turistas na cidade. O movimento gera renda para a comunidade, mas especialistas alertam para a necessidade de planejamento para evitar o encarecimento do comércio local e transtornos para os moradores.

Duas favelas estão entre os 20 lugares mais visitados por turistas na cidade do Rio. No primeiro semestre deste ano, o Vidigal recebeu 193.247 visitas turísticas e a Rocinha, 186.995, segundo levantamento do Observatório de Turismo Carioca. As duas estão à frente da Escadaria Selarón (148.287) e da Feira de São Cristóvão (71.752).

No ranking geral de turistas do Observatório, que soma visitantes nacionais e internacionais, o Vidigal aparece na 14ª posição e a Rocinha, na 16ª.

  • Vidigal e Rocinha estão entre os 20 lugares mais visitados do Rio, com mais de 190 mil visitas cada.
  • Observatório de Turismo usa dados de celular para contar as visitas, incluindo turistas estrangeiros em roaming.
  • Para valer como visita, a pessoa não pode morar, trabalhar ou estudar no local e precisa ficar pelo menos 30 minutos na área.
  • A conta é de visitas, não de pessoas: se a mesma pessoa vai duas vezes, ela é contada duas vezes.
  • Turismo gera renda para as comunidades, mas especialistas alertam para o risco de encarecimento e transtornos.

Como a prefeitura chega a esses números

As favelas não têm catraca de entrada e nem caderno de reserva. Para chegar aos números, a prefeitura utiliza os dados gerados por aparelhos celulares.

O Observatório de Turismo Carioca trabalha com registros de telefonia conhecidos como CDR (detalhes de chamada). Sobre o mapa da cidade, a equipe desenha recortes geográficos em cima de cada ponto turístico, os chamados polígonos, e acompanha quais aparelhos acessam as antenas que cobrem aquele pedaço.

"Em cima do mapa da cidade e da posição dessas antenas de telefonia celular, eu vou criar recortes nas áreas que são minhas áreas de interesse", explica Renato Oliveira, gerente da plataforma Observatório de Turismo. "Dentro daquele recorte geográfico, é possível identificar quem está ali naquele espaço."

O estudo não olha um dia isolado. Dessa forma, é acompanhado o comportamento do aparelho ao longo do mês para montar o que o setor chama de matriz origem-destino.

"Eu sei onde aquele telefone pernoitou, onde aquele telefone passou a maior parte de um mês. Onde ele passou a maior parte do mês, fora do horário comercial, eu vou entender que é o local de residência dele", diz Renato.

O que conta como "visita turística"

Os critérios são mais estreitos do que o nome sugere. Para entrar na conta, o dono do aparelho não pode morar, trabalhar nem estudar naquele território, e precisa ter permanecido pelo menos 30 minutos dentro do polígono. Essa restrição temporal serve para descartar quem só passou de carro ou de metrô. Apenas quem é de outro país ou estado entra na conta.

E há um detalhe importante para quem lê os números: a conta é de visitas, não de pessoas. "Se ele foi duas vezes dentro da Rocinha, três, quatro vezes, ele vai ser contado quatro, cinco vezes. Porque a gente está contando as visitas e não a pessoa", explica Renato.

Por que só quatro favelas aparecem

O Observatório monitora e divulga 20 pontos turísticos desde 2023; a série histórica começou pelos lugares que já tinham fluxo consolidado. Internamente, a equipe trabalha com cerca de 100. Expandir a lista para outras favelas é uma vontade da secretaria, mas esbarra em um limite técnico.

"A gente não consegue fazer recortes muito pequenos. E tem regiões em que a gente tem pouca quantidade de antena", diz Renato.

O exemplo que ele dá é o das favelas de Copacabana e do Leme. "A Babilônia fica tão perto da praia e do Forte que uma pessoa no morro pode acabar registrada por uma antena que cobre a areia. Eu não conseguiria, ali naquele território, pela quantidade de antenas, definir quem realmente está visitando a favela, quem está no Forte e quem está na praia", afirma.

Do picolé ao prêmio nacional

A criatividade e a sensibilidade fizeram com que Cosme Felippsen, de 37 anos, se tornasse guia de turismo. Foi em 1997, quando a Providência comemorava os 100 anos do termo favela e um casal de estrangeiros pediu para conhecer os becos. Ele tinha 8 anos.

"Eu levei eles até a Toca, uma parte onde eu morava na Providência, na Rua da Grota, e voltei com eles para a Praça Américo Brum, que hoje é a estação do teleférico. E eles me pagaram um picolé, que foi meu primeiro pagamento", conta.

Na adolescência, ele frequentou a Igreja Metodista Centenária, no pé do morro, na Gamboa, que recebia fiéis de várias partes do mundo. Eles queriam subir a favela e chamavam Cosme. Em troca, o levavam ao roteiro tradicional da cidade. "Assim eu ia conhecendo minha cidade também", diz.

O nome Rolé dos Favelados só apareceu em 2016. Cosme tinha voltado de Nova York, de uma conferência sobre direitos humanos e moradia a convite da Fundação Rosa Luxemburgo, e queria continuar os passeios na Providência sem repetir um modelo que o incomodava.

"Eu tinha medo de cometer o erro do safari tour, do favela tour, que são guiamentos feitos por agências e guias de fora da favela, que reforçam preconceito, estigma, o estereótipo dessas localidades. São guias e agências que não têm propriedade para falar do território", afirma.

A virada veio no curso Histórias Vivas, organizado pela jornalista Gisele Martins, moradora da Maré. Em uma visita à Providência com mulheres faveladas da Maré, saiu o nome. De lá para cá, já foram mais de 30 mil pessoas guiadas.

Cosme fez o curso técnico de guia de turismo, mas segue outra cartilha. Segundo a Unirio, o Rolé dos Favelados é o primeiro guiamento de ativismo e militância do Brasil. "No curso de guia, a gente é orientado a não se posicionar. E, para o Rolé dos Favelados, quem não se posiciona já está posicionado. Portanto, o Rolé dos Favelados é uma desobediência, uma rebeldia ao curso de guia de turismo. Porque, antes de eu ser guia, eu sou vivente, atuante, morador desse território", diz.

Na prática, isso muda o roteiro. "A gente não leva turista só para ver uma vista, tomar uma caipirinha e fazer o que quer na favela. A gente leva o visitante para se debruçar e pensar sobre favela, sobre saneamento básico, sobre cultura, sobre religiosidade, sobre segurança completa."

Hoje são cerca de três passeios por semana e uma média de 100 pessoas por mês, entre visitantes individuais e escolas. Na Providência, ele conta com mais um guia. Também atua no Salgueiro e na Rocinha.

No ano passado, Felippsen venceu o Prêmio Nacional do Turismo, do Ministério do Turismo, na categoria Lideranças Sociais ou Comunitárias de Destaque. Neste ano, ficou em primeiro lugar na categoria Sociedade Civil, pessoa física, do 1º Prêmio Rotas Negras, do Ministério da Igualdade Racial, com nota máxima.