Uma pesquisa inédita do Instituto Fogo Cruzado mostra que a violência armada na capital baiana é maior em regiões com predominância de população negra e de baixa renda. O estudo também revela que 59% dos confrontos acontecem em dias letivos, colocando em risco crianças e adolescentes.
Um estudo inédito do Instituto Fogo Cruzado revelou que tiroteios na cidade de Salvador afetaram majoritariamente áreas negras e empobrecidas, entre 2023 e 2025. Crianças e adolescentes em escolas nessas regiões vivem em um risco maior, conforme a pesquisa divulgada nesta quinta-feira (13).
O relatório A Geografia da Exposição: Disparos de arma de fogo, território e escolas afetadas em Salvador, realizado em parceria com a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política Sobre Drogas, também mapeia e analisa o impacto da violência armada nas escolas públicas da cidade entre 2023 e 2025.
- 3.748 disparos foram registrados em Salvador no período, uma média de 3,4 por dia.
- 59% dos tiros (2.206) ocorreram em dias letivos.
- 40% dos tiroteios aconteceram à luz do dia, afetando entrada e saída de alunos.
- Quase 70% dos incidentes em dias de aula envolvem ações policiais (37,4%) e homicídios ou tentativas (32%).
- 8 bairros concentram quase 20% de todos os tiroteios, todos com mais de 83% de população não-branca.
Foram mapeados 3.748 disparos de armas de fogo em Salvador, que resultaram em uma média de 3,4 ocorrências por dia. Desse total, 59% dos tiros (2.206) foram dados em dias letivos e 40% aconteceram à luz do dia, prejudicando diretamente a mobilidade e a segurança da população, pois coincide com os momentos de entrada, saída e recreio dos estudantes.
Segundo os pesquisadores, o dado também refuta o senso comum de que a violência é mais intensa apenas nos períodos da noite e madrugada. Além disso, a pesquisa revela que quase 70% dos incidentes registrados em dias de aula derivam de intervenções policiais (37,4%) e de homicídios ou tentativas (32%).
Quando são inseridos os marcadores socioeconômicos e raciais, a análise aponta que dos 163 bairros de Salvador, em apenas oito foi registrado quase 20% de todos os tiroteios no período. Em todos eles, a proporção da população não-branca (preta, parda e indígena) é superior a 83%, com pico de quase 93% num deles.
Além disso, a renda média per capita em seis desses distritos é inferior a R$ 900, pouco mais da metade do salário-mínimo. Os bairros submetidos a maior truculência foram: Beiru/Tancredo Neves, Pernambués, Fazenda Grande do Retiro, Lobato, Valéria, Federação, IAPI e Castelo Branco.
Desigualdade e exposição ao risco
De acordo com o estudo, ficaram comprovadas as dinâmicas da desigualdade na capital soteropolitana: escolas em territórios com menores faixas de renda e maiores proporções de população não-branca têm índices de risco significativamente maiores.
Além disso, o relatório constata que, nas seis escolas em situação crítica persistente, a renda média do entorno variava entre R$ 594,10 e R$ 702,59 e a população não-branca estava entre 87,4% e 91,2%.
Apesar da grande maioria da rede de ensino público conviver com baixos níveis de ocorrências, é expressiva a quantidade de estudantes matriculados em escolas em zonas de risco alto e críticas: em 2025, 2.802 estudantes estavam matriculados nas 10 escolas que atingiram uma classificação de alto risco, enquanto 20.744 discentes estavam matriculados em áreas críticas.
O contingente de mais de 23 mil alunos sob graves níveis de exposição não fica espalhado aleatoriamente pela capital baiana. A pesquisa aponta que quase 17,9 mil estudantes estudam em apenas duas regiões: Liberdade/São Caetano, a região mais crítica onde se concentram 12.643 matrículas, e Cidade Baixa, que reúne 5.242 matrículas.
Índice de Risco do Entorno Escolar e Desigualdades
Para dimensionar o impacto da violência armada, foi desenvolvido o IREE (Índice de Risco de Exposição Escolar), que avalia a intensidade (proximidade), severidade (letalidade) e a persistência (semanas afetadas) dos tiroteios em um raio de até 1 km das escolas.
A partir deste marcador, foi identificado que a maioria das cerca de 600 unidades escolares de Salvador, que recebem 275 mil matrículas por ano, enfrenta baixa exposição a eventos armados. Porém, um grupo restrito de instituições de ensino precisa suportar níveis críticos de violência.
Entre 2023 e 2025, 120 escolas integraram as chamadas "áreas críticas" durante pelo menos um ano, sendo que seis unidades permaneceram imersas nesse cenário de altíssimo risco durante todo o período analisado.
Em 2023, somente 10 escolas não registraram exposição a eventos de tiroteios, enquanto 283 acumularam entre 10 a 40 dias afetados e 81 escolas ultrapassaram 40 dias, chegando a 74 dias afetados. Já em 2024, apenas 11 escolas não tiveram registros, 280 foram afetadas entre 10 a 40 dias letivos e 71 superaram 40 dias, chegando a até 80 dias.
Já em 2025, 12 escolas não registraram nenhum dia afetado, 133 instituições tiveram entre 10 e 20 dias letivos interrompidos, 183 registraram entre 21 e 40 dias e 23 escolas ultrapassaram 40 dias de exposição no ano, com casos de até 55 dias afetados.
O relatório afirma que, considerando que o calendário escolar brasileiro tem cerca de 200 dias letivos, os resultados mostram que a violência armada é uma condição recorrente do território para parte significativa das escolas e dos alunos, com potencial para afetar o funcionamento escolar, a circulação da comunidade e a continuidade das atividades educacionais.
Prioridades e recomendações
O relatório agrupou as escolas nas dez Prefeituras-Bairro de Salvador, oferecendo dados para orientação das prioridades de ação para o poder público. As Prefeituras-Bairro da Liberdade/São Caetano e da Cidade Baixa foram classificadas como de Prioridade Muito Alta, uma vez que nelas estão 39% das escolas em áreas críticas e concentram quase duas dezenas de alunos sob severa exposição territorial à violência. As regiões de Cabula/Tancredo Neves e Cajazeiras vêm logo a seguir, categorizadas como de Prioridade Alta.
O estudo conclui que o Estado precisa tratar a rede escolar conforme suas desigualdades estruturais e territoriais da dinâmica urbana soteropolitana - para garantir o direito fundamental à educação e mitigar os efeitos cognitivos, psicossociais e pedagógicos da exposição à violência armada.
Por isso, as instituições recomendam que as secretarias municipais utilizem dados georreferenciados e incorporem indicadores, como o novo IREE, na alocação de equipes e gestão de crises, apoio psicossocial e pedagógico, e protocolos intersetoriais que visem instituir fluxos operacionais rápidos envolvendo Educação, Assistência Social, Segurança Pública e Saúde. "A administração municipal deve garantir ação integrada em territórios prioritários antes, durante e após episódios de violência", afirma o relatório.
O estudo, que contou com o apoio da Imaginable Futures, analisou dados de segurança pública (Instituto Fogo Cruzado), educação (INEP) e características territoriais e socioeconômicas (Censo Demográfico de 2022 do IBGE), e adota a escola como unidade central de observação.


Policial do Deic da Bahia. Divulgação





