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Projeto premiado em escola rural usa natureza e saberes tradicionais para ensinar

Educação 17/06/2026 09:47 Camila Boehm agenciabrasil.ebc.com.br

Um projeto que transforma quintais e áreas verdes em salas de aula ao ar livre foi premiado e agora está com inscrições abertas até 29 de junho. A iniciativa valoriza a natureza e os conhecimentos das comunidades tradicionais para melhorar a educação.

Transformando quintais e áreas verdes em espaços de aprendizagem, a Escola Municipal do Campo Professora Andréa Ferraz de Oliveira, em Itararé, interior de São Paulo, criou um projeto que resgata memórias, fortalece os laços da comunidade e valoriza os saberes que passam de geração em geração.

O projeto 'Salas Abertas: Reconectar com a Natureza' venceu o Prêmio Escolas Baseadas na Natureza no ano passado. Ele ampliou o ensino para além da sala de aula, criando locais para aulas ao ar livre. O objetivo também é valorizar as tradições locais e repensar práticas para melhorar a qualidade de vida na região.

  • O projeto venceu um prêmio nacional e pode inspirar outras escolas.
  • As aulas ao ar livre incluem horta, pomar e até uma cozinha de brinquedo para as crianças aprenderem brincando.
  • Uma moradora mais velha da comunidade, a Dona Eusa, ensinou técnicas de plantio com sementes crioulas (tradicionais).
  • Uma comunidade quilombola da região ajudou a construir uma casa de barro que virou a 'Casa de Sementes'.
  • O prêmio também dá dinheiro e ajuda técnica para as escolas vencedoras melhorarem seus espaços.

A ideia começou com a história de Eusa Rodrigues Pereira, moradora que foi cozinheira da escola por mais de 30 anos. Ela sempre cuidou de sementes crioulas (sementes tradicionais) e compartilhou esse conhecimento com a escola. A professora Dynná Ferraz conta que a escola abraçou esse saber, que é um caminho importante para mudar a forma de produzir alimentos, já que a segurança alimentar é um problema local e global.

Com o projeto, os espaços educativos ganharam o 'Berçário das Plantas', que tem horta, pomar e uma casa de sementes, usando técnicas da comunidade quilombola da região. Os moradores da Comunidade Quilombola Fazenda Silvério, liderados pelo Tio Darci, construíram uma casa de barro com a ajuda dos estudantes. Essa casa se tornou a Casa de Sementes Eusa Rodrigues Pereira. Agora aposentada, Dona Eusa ainda visita a escola e participa dos eventos.

No Berçário das Plantas, as crianças podem pesquisar e experimentar. Atrás da casinha de barro tem um pomar e um fogão a lenha. As crianças brincam com as sementes na 'cozinha brincante', que fica debaixo do pomar. Perto dali tem a horta, onde elas podem plantar e colher, aprendendo sobre alimentação saudável.

Outros espaços de aprendizagem

O 'Canto da Calma' é outra sala aberta do projeto. Ele tem um jardim e um espaço para leitura. O local é usado para ajudar as crianças a se acalmarem e também para incentivar a leitura ao ar livre, em contato com a natureza. A professora Dynná explica que fizeram uma biblioteca perto de uma rede, criando um cantinho da calma. As crianças pegam um livro, descem por um escorregador de madeira e vão para a rede. Antes, a área era gramada, mas não era bem aproveitada.

As aulas ficaram mais práticas e interessantes para as crianças, que já gostavam dos espaços abertos, e os professores ficaram mais motivados para dar aulas fora da sala de aula tradicional. Dynná diz que a proposta ajuda os alunos a ficarem mais sensíveis ao contato com a natureza e a perceberem a importância dos recursos naturais.

A escola também tem um laboratório onde os alunos fazem experimentos. Por exemplo, eles plantam e comparam um canteiro que tem cobertura morta com outro que não tem. Em um canteiro colocam húmus e no outro não, e observam o que acontece. Eles também produzem defensivos orgânicos no laboratório.

Segundo a educadora, o Prêmio Escolas Baseadas na Natureza permitiu fazer melhorias importantes nos espaços abertos. A escola já tinha espaços com muita natureza, mas o prêmio, junto com as mentorias e as visitas de especialistas, ajudou a reorganizar esses espaços como salas de aula abertas. Essas melhorias já foram feitas e a equipe escolar vê no projeto o impulso necessário para melhorar ainda mais as práticas, com impacto direto na comunidade e a chance de ampliar os debates para além da escola.

Nova edição do prêmio

A nova edição do Prêmio Escolas Baseadas na Natureza está com inscrições abertas até 29 de junho para apoiar projetos em escolas públicas municipais. Cinco escolas vão receber R$ 100 mil cada para desenvolver seus projetos, além de acompanhamento técnico em arquitetura e educação. As inscrições devem ser feitas pelo site do programa.

O prêmio é promovido pelo Instituto Motiva, com apoio técnico e pedagógico do Instituto Alana e do Instituto Crescer. Ele faz parte do Programa Escolas Baseadas na Natureza, que foca na formação de educadores para um modelo onde a natureza é o centro da educação. O prêmio é para escolas de 255 municípios de 13 estados onde a Motiva atua.

A arquiteta e urbanista Dayana Araújo, coordenadora do programa pelo Instituto Alana, defende o resgate do vínculo das crianças com a natureza, que tem se perdido. Ela diz que o grande desafio está na desconexão com a natureza. Os pedagogos e especialistas falam da importância de 'tirar as crianças das paredes', porque elas estão cada vez mais presas nos quartos, em casa e nas telas. A Sociedade Brasileira de Pediatria já anunciou o 'Transtorno do Déficit de Natureza'. Muitas áreas do conhecimento estão nos chamando a pensar na importância de aprender na natureza.

Ela ressalta que a natureza promove o desenvolvimento completo das crianças e jovens. Quando se aprende com a natureza, a pessoa se desenvolve como um todo: como um ser que pensa, que convive em sociedade e que tem um corpo saudável.

Segundo a presidente do Instituto Motiva, Renata Ruggiero, o prêmio é uma forma de incentivar escolas públicas a fortalecerem práticas de ensino que estejam alinhadas com os desafios ambientais de hoje. Ela destaca a importância de que essas iniciativas aconteçam de forma cada vez mais organizada nas escolas. Quando os espaços escolares ganham elementos naturais e passam a ser usados como ambientes de aprendizagem, os alunos desenvolvem novas formas de observar, investigar e entender o mundo ao redor. O prêmio mostrou o enorme potencial que existe nas escolas públicas brasileiras para criar iniciativas criativas e transformadoras.