A Coopercitrus criou a Liga Jovem, um programa que reúne filhos e netos de associados para preparar a próxima geração de líderes do campo, unindo educação, tecnologia e cooperativismo.
Na abertura da Coopercitrus Expo 2026, o presidente da cooperativa, Fernando Degobbi, lembrou uma das principais metas ao celebrar os 50 anos de história: começar a construir os próximos 50 anos de sucesso.
- A Liga Jovem Coopercitrus já nasceu com a meta de reunir 3 mil participantes no primeiro ano.
- O programa oferece estágios em mais de 70 unidades da cooperativa e contato com tecnologias como drones, robótica e imagens de satélite.
- Jovens como Luísa Lian, de 22 anos, e João Delgado, de 21, são exemplos de como a iniciativa prepara a nova geração para assumir o comando das propriedades.
- A ideia é que os jovens aprendam na prática e levem inovações para as fazendas da família, como análise digital do solo e irrigação automatizada.
- A sucessão rural é um dos maiores desafios do agronegócio, e a cooperativa quer ajudar a resolver esse problema com educação e troca de experiências.
A resposta para esse desafio estava espalhada pela própria feira. Alguns jovens ainda cursam faculdade, outros acabaram de se formar. Eles têm entre 20 e poucos anos, cresceram dentro de propriedades rurais e agora começam a ocupar um espaço diferente: não só acompanhar os pais, tios e avós nas lavouras, mas também se preparar para liderar.
São esses jovens que a Coopercitrus tenta preparar para assumir, nos próximos anos, não apenas as fazendas das famílias, mas também posições de liderança dentro da própria cooperativa.
O que é a Liga Jovem Coopercitrus
Essa é a proposta da Liga Jovem Coopercitrus, um programa criado neste ano para aproximar filhos, sobrinhos, netos e outros familiares de cooperados da realidade da gestão rural, do cooperativismo e das novas tecnologias que estão transformando a agricultura.
A ideia é tentar resolver a "principal pedra no sapato do produtor rural a nível global", segundo Matheus Marino, presidente do conselho de administração da Coopercitrus: a sucessão familiar no campo.
Segundo ele, a cooperativa decidiu assumir um papel ativo nesse processo. A estratégia inclui oferecer estágios em mais de 70 unidades, aproximar esses jovens de diferentes perfis de produtores e apresentá-los a tecnologias como agricultura digital, drones, imagens de satélite, robótica e algoritmos. Essas ferramentas, muitas vezes, despertam mais interesse nas novas gerações do que a atividade agrícola tradicional.
"A cooperativa pode complementar a escola do associado. Quando esse filho ou neto passa por aqui, conhece outras culturas, outras tecnologias e outras realidades. Ele volta para casa encantado com o agro", afirmou Marino.
Além de estudantes de agronomia, a Liga também incentiva a participação de universitários de outras áreas, como administração, direito, geografia e veterinária.
Segundo Marino, essa nova geração reflete a diversidade da base de cooperados da Coopercitrus. Há filhos e netos de grandes grupos do agronegócio, mas também jovens vindos de pequenas e médias propriedades espalhadas pelos estados onde a cooperativa atua.
Durante o encontro da Liga, por exemplo, estavam presentes desde integrantes da família Colombo, uma das maiores produtoras agrícolas do país, até famílias de produtores médios e pequenos. "Tem de todos os perfis, de todas as culturas e de todas as regiões. É justamente essa diversidade que faz a troca ser tão rica", afirmou Marino.
O programa é tratado como estratégico pelo conselho de administração. A meta é reunir cerca de 3 mil integrantes já no primeiro ano de funcionamento.
Histórias de quem está na Liga
Para Luísa Lian, de 22 anos, a estratégia faz sentido porque se confunde com a própria história da família. Produtora de citros de quarta geração, ela faz parte de uma família que cultiva 1,5 mil hectares com laranjais. Luísa cresceu ouvindo como o bisavô, o imigrante libanês Issa Lian, começou os primeiros pomares na região de Bebedouro. Depois vieram o avô, que deixou a carreira de dentista para assumir o negócio, e o pai, que fez o mesmo ao abandonar a advocacia.
Com ela, a sucessão quase tomou outro rumo. "Eu pensava em cursar publicidade, porque sempre gostei de comunicação. Mas acompanhando meu pai nas fazendas, percebi que não tinha como fugir das minhas raízes", contou a recém-formada em engenharia agronômica.
A escolha pela agronomia enfrentou resistência dentro de casa. "Houve um pouco de preconceito, talvez pelo machismo do setor, mas eu sempre dizia que queria ser igual ao meu pai, que chegava em casa com a caminhonete cheia de terra e as botinas sujas quando eu era criança", disse Luísa.
Ela ainda não ingressou oficialmente na empresa da família, a Lian Citrus. Antes disso, precisa cumprir uma exigência: trabalhar primeiro fora da propriedade para ganhar experiência. Nesse caminho, a Coopercitrus se tornou parte da sua formação. Ela participou do programa Jovem Cooperado, fez estágios de férias, passou seis meses na cooperativa durante a graduação e hoje lidera a comunicação da Liga Jovem.
João Delgado, de 21 anos, vive uma realidade diferente, mas compartilha do mesmo objetivo. Sobrinho-neto de um produtor de laranja de Bebedouro, ele ainda está mais distante de ser o sucessor da propriedade da família. Mesmo assim, escolheu cursar engenharia agronômica para manter essa possibilidade aberta e hoje atua como vice-líder de comunicação da Liga.
Ao contrário da história de Luísa, a sucessão em sua família não seguiu uma linha contínua. O tio-avô não tem filhos envolvidos diretamente na atividade, e outros parentes seguiram carreiras fora do agronegócio. É justamente esse cenário que faz João enxergar na formação e na participação na Liga uma oportunidade de manter vivo o legado da família.
"O agro é encantador. A gente produz alimento para milhares de pessoas. Isso foi o que me fez escolher esse caminho", afirmou.
Tecnologia como ponte entre gerações
Para ambos, um dos maiores papéis da nova geração será acelerar a adoção de tecnologias dentro das propriedades. Nas fazendas da família, Luísa Lian diz já ter conseguido convencer o pai a usar ferramentas que conheceu durante os estágios na cooperativa, como análises digitais de solo, drones, irrigação automatizada e sistemas de energia solar.
"O meu pai já veio com uma cabeça mais aberta que a do meu avô. Ainda tem coisas que ele acha que não precisa, mas a gente vai mostrando aos poucos", explicou. Já João Delgado observa movimento semelhante entre colegas da faculdade de agronomia. "Tem amigos que convenceram os pais depois de mostrar, na prática, que um drone reduzia custo, diminuía o tempo de operação e fazia uma aplicação mais eficiente. Depois que viram funcionando, mudaram de ideia", conta.
É justamente essa troca que Marino, presidente do conselho da Coopercitrus, considera mais importante. Segundo ele, o debate sobre sucessão costuma olhar apenas para a visão dos pais e avós, quando o processo também exige compreender o que motiva quem está chegando. "Hoje a gente quer ouvir o jovem. Entender o que encanta essa geração, o que ela espera do agro e como podemos aproximar essas expectativas da realidade das famílias", afirmou.
"A Coopercitrus tem uma área digital muito forte. Trabalhamos com imagem de satélite, robótica, drones, algoritmos, e isso atrai os jovens. A partir do momento que eu trago os jovens dentro da cooperativa, ele conhece mais do negócio agro, conhece que o agro é pura tecnologia. Ele volta pra casa com outra cabeça", completou Marino.
Essa foi a proposta da primeira plenária da Liga Jovem, realizada durante o segundo dia da Coopercitrus Expo. O encontro reuniu dezenas de jovens de famílias cooperadas e teve como convidado Jorge Nishimura, filho do fundador da Jacto, empresa conhecida pelo planejamento sucessório no agronegócio brasileiro.
Ao falar sobre a experiência da companhia, Nishimura defendeu que a sucessão deixou de ser um processo em que apenas os mais velhos ensinam os mais novos. Para ele, a construção desse futuro passa por uma relação de mão dupla: ao mesmo tempo em que a experiência acumulada pelas gerações anteriores precisa ser transmitida, os líderes também devem estar dispostos a aprender com quem nasceu em um ambiente digital e chega ao campo com outra visão sobre tecnologia, comunicação e gestão.
O executivo chamou esse processo de "mentoria reversa", em que profissionais mais experientes assumem a posição de aprendizes para compreender novas ferramentas, formas de trabalho e até diferentes maneiras de enxergar os negócios. "A geração Z é muito boa. O desafio é aprender a criar pontes entre as gerações", resumiu.


Integrantes da Liga Jovem Coopercitrus, iniciativa que aproxima familiares de cooperados da gestão, da tecnologia e do cooperativismo de olho na sucessão





