Com juros altos, dívidas e dificuldade para conseguir crédito, produtores podem devolver terras e usar menos tecnologia na próxima safra.
Após 20 safras seguidas, é possível que o Brasil não veja a área de cultivo de soja crescer em 2026/27. A combinação de juros elevados, aumento das dívidas pelos produtores e dificuldade de acesso ao crédito deve limitar os investimentos na temporada. A expectativa de alguns analistas é a devolução de terras arrendadas.
"Existe um custo para manutenção da lavoura e um ainda maior para a expansão da área", diz à CNN Emerson Wohlenberg, diretor de consultoria em agronegócio da S&P Global.
- O Brasil teve 20 safras de crescimento na área de soja, mas isso pode parar.
- Juros altos e dívidas dificultam o acesso ao crédito para os produtores.
- Produtores podem devolver terras arrendadas por causa dos custos.
- O preço da soja caiu, reduzindo o valor do arrendamento em reais.
- A tecnologia no campo pode ser reduzida, afetando a produtividade.
Segundo ele, a falta de recursos dos produtores está relacionada à perda de valor do grão e não ao aumento do custo em reais.
O arrendamento de terras no Brasil é usualmente negociado em sacas de soja por hectare. Portanto, com os preços da commodity mais baixos, o mesmo número de sacas passa a representar um valor menor em reais para o proprietário da terra e um custo financeiro maior para o produtor, como explica o consultor.
"O produtor pagava um arrendamento para o pecuarista para usar essa terra durante um prazo. Os preços dos arrendamentos tendem a cair se você fizer essa conta em reais ou dólares por hectare. Neste momento, você já vê que tem uma queda significativa", afirma Wohlenberg.
"O custo precisa ser ajustado. Se a terra retornar para o pecuarista e ele não tiver o recurso para plantar, é provável que ajuste para baixo o preço de uso da sua terra. Então o mercado vai se ajustando", afirma Wohlenberg.
O pessimismo do consultor da S&P não é compartilhado por Rafael Silveira, analista de mercado do Safras & Mercado. Silveira acredita que a área de plantio do grão pode aumentar em 2026/27 apesar dessa margem apertada do produtor.
"A gente espera um aumento de área de 1,2%. E, se tudo der certo, teremos uma safra 2026/27, na casa de 180 milhões ou 181 milhões de toneladas", sinaliza Rafael.
Tecnologia no campo
O setor reconhece que com dificuldade de acesso à contratação de crédito rural, margens negativas e alto custo de produção, a tecnologia no campo também vai ser prejudicada, como explica o analista da Safras & Mercado.
"Devemos ter uma redução na tecnologia empregada na safra nova. Isso pode impactar a produtividade de 2026/27. Por isso, não vemos uma grande elasticidade na produção, como tivemos no ano passado", conclui Silveira.


Área de cultivo deve permanecer estável em 2026/27 - 30 de maio de 2024 - REUTERS/Jim Vondruska





