pt-br

31 de agosto de 2026

Irmãs viralizam com vídeos que rebatem discursos misóginos

Geral Feminismo 31/08/2026 08:42 G1 folhamax.com

Projeto 'Pink Pill' criado por duas irmãs valoriza o feminino e responde com humor a ataques na internet.

As irmãs Hyla e Cah Fernandes têm viralizado com o projeto 'Pink Pill', que busca valorizar o universo feminino. Os vídeos já passaram de um milhão e meio de visualizações.

Com o aumento de discursos contra as mulheres nas redes sociais, especialmente vindos de grupos chamados 'Red Pill', o projeto virou uma resposta a esse ódio.

  • As irmãs Hyla e Cah criaram o projeto 'Pink Pill' para valorizar o feminino.
  • Os vídeos já ultrapassaram 1,5 milhão de visualizações.
  • O projeto responde com humor a comentários machistas.
  • Pesquisadoras explicam o que é a 'machosfera' e grupos como 'Red Pill'.
  • A defesa pessoal ajuda mulheres a se sentirem mais fortes.

Em entrevista à imprensa, a dupla, que mora em Salvador, disse que produz conteúdo para as redes sociais há cerca de 11 anos e que o 'Pink Pill' surgiu de forma espontânea. A princípio, a ideia nasceu da percepção de Cah sobre a própria feminilidade, e não para combater a misoginia.

Cah é psicóloga e pesquisadora pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Ela achava divertido o contraste entre seu trabalho sério e sua estética do dia a dia.

Cah contou: 'Eu gosto de usar rosa, minissaia, tamancas grandes e unhas compridas. Adoro o contraste entre essa estética e o que eu faço.'

Com a ajuda da irmã, com quem já fazia vídeos antes, Cah montou o que seria um quadro em seu perfil.

Ela explicou: 'Chamei minha irmã para gravar e no começo não tinha nome. A ideia era fazer coisas tidas como femininas, mas de um jeito diferente, como andar de moto e consertar coisas em casa.'

Depois de gravar uma abertura improvisada, elas lançaram o primeiro vídeo com a música do 'Pink Pill'. Ele já tem mais de um milhão de visualizações no Instagram. O projeto, criado há três meses, virou um sucesso e um espaço para valorizar o feminino.

Ataques

Antes mesmo de o projeto virar um combate à misoginia, as criadoras começaram a receber ataques, principalmente de homens. Eles mandavam ofensas racistas e misóginas. O número de insultos cresceu depois do último vídeo viral, que faz uma comparação entre homens abusivos e louça suja.

No vídeo, elas sugerem formas de 'se livrar da louça suja' com trocadilhos sobre autodefesa em situações de violência. O roteiro foi criado para responder a comentários machistas, como o famoso 'vai lavar a louça'.

Cah disse: 'Eles sempre mandam a gente lavar a louça. Como queríamos ressignificar isso, eu falei que precisávamos dar outro sentido.'

Além de mudar a ideia de que a mulher é só vítima, as irmãs dizem que a expressão virou uma brincadeira entre os seguidores e uma forma de responder a comentários machistas.

Elas afirmam: 'Precisamos de ferramentas bem-humoradas para que as meninas respondam e não haja espaço para essas piadas idiotas que desviam o assunto.'

A reação dos homens ao vídeo, que não fala nem a palavra 'homem', foi forte, mas esperada. Elas consideram essa repercussão positiva, porque mostra que o conteúdo incomoda quem tem discurso contra as mulheres.

Hyla perguntou, em tom de ironia: 'Quando soltamos o vídeo da louça, ficamos pensando: do que vocês tanto têm medo'

Misoginia nas redes sociais e a 'machosfera'

A pesquisadora Julie Ricard, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo, explicou que grupos com discursos contra as mulheres se formam nas redes sociais por causa da autoidentificação.

Julie começou a pesquisar o assunto depois de ver discursos de ódio em grupos no Telegram. Ela passou a mapear esses grupos que se chamam de 'antifemininos'.

A 'machosfera' é o nome desse ambiente online, com grupos que têm níveis diferentes de discurso contra as mulheres. Termos como 'red pill' e 'incel' fazem parte dessa identidade masculina.

Diferenças entre os grupos

Incel: são homens que querem se relacionar com mulheres, mas não conseguem.

MGTOW: significa 'homens seguem seu próprio caminho'. Eles acham que a situação é tão ruim que preferem não ter relações com mulheres.

Red Pill: nome vem do filme 'Matrix' (1999). Esses homens acham que são oprimidos por mulheres e feministas.

Julie diz que esses grupos simplificam demais as questões de gênero.

Ela explica: 'Eles culpam as mulheres pelas próprias frustrações, o que é simplista. Há um sofrimento e uma solidão, mas eles expressam isso com violência, culpando as mulheres de uma forma distorcida.'

Ela lembra que não há dados suficientes para afirmar por que esses discursos crescem ou como isso afeta o dia a dia.

Ela alerta que esses discursos têm crescido por causa de influenciadores e da cooptação de temas como desenvolvimento pessoal, saúde, esportes e até conquista de mulheres.

Assim, mais homens entram nesses lugares, onde o ódio às mulheres está nas relações. Ela diz: 'Nem tudo na machosfera é extremista ou violento. Há interesses comuns considerados masculinos.'

Por isso, é importante haver discursos que ampliem a visão sobre os papéis de gênero. Parte do problema está na forma como homens e mulheres são criados.

Ela afirma: 'A criação com base no gênero afeta nossa vida, inclusive a capacidade de lidar com frustrações. Os homens de hoje não têm repertório emocional para isso.'

Essas questões mostram um comportamento estrutural que sempre usou a violência contra a mulher. Julie diz que inverter totalmente os papéis pode ser ruim, mas desconstruir os estereótipos é importante.

Ela completa: 'Não há mais áreas em que homens e mulheres não possam competir, exceto na força física, há diferença. Mas eles estão voltando para a violência como forma de poder.'

Defesa pessoal para sobrevivência

O projeto das irmãs foi feito para chamar a atenção e mostrar que há força no feminino. Elas querem ensinar as mulheres a reconhecerem seu próprio poder.

Cah disse: 'A ideia é que eles não nos encontrem passivas. Que lembrem que estamos vivas e lutando, mesmo com a alta taxa de feminicídio.'

A instrutora de defesa pessoal Lara Tosta disse que essa mudança de percepção é uma das maiores transformações. Ela é instrutora de Krav Magá e já viu muitas mulheres duvidarem de sua força antes de treinar.

Lara afirmou: 'As mulheres não são incentivadas a lutar, mas quando percebem a própria força, perdem a sensação de serem fracas ou vulneráveis.'

Ela disse que o medo leva muitas mulheres ao treino. Na academia dela, em Salvador, o número de alunas aumenta depois de casos de feminicídio com grande repercussão.

Mesmo com o cenário desanimador, ela vê de forma positiva o interesse das mulheres. Transformar o medo em força é a essência do Krav Magá, que nasceu como arte da sobrevivência.

A defesa pessoal exige prática diária, como qualquer exercício. Além dos golpes, ela também treina a mente.

Lara não recomenda o uso de armas como spray de pimenta nem técnicas sem preparo. É preciso ter uma postura de combate.

Ela disse: 'O objetivo é dar à mulher a chance de se preparar, para prevenir situações e saber o que fazer se algo acontecer. É melhor saber e não precisar do que precisar e não saber.'

Reunir e fortalecer mulheres

Ambientes que juntam e fortalecem mulheres são essenciais para elas se sentirem capazes. É preciso exercitar isso no dia a dia, na mente e no corpo.

Para Hyla e Cah, o 'Pink Pill' é esse movimento. Elas querem criar clubes femininos em Salvador para fortalecer a rede de apoio entre mulheres.

Elas projetam: 'Queremos ações com impacto positivo e um espaço seguro para as mulheres se expressarem.'