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30 de setembro de 2026

Etanol de milho cresce muito, mas falta venda para sustentar as usinas

Geral Etanol 30/09/2026 07:43 Italo Bertão Filho, AgFeed agfeed.com.br São Paulo SP

A produção de etanol de milho no Brasil acelera, porém a indústria enfrenta o desafio de encontrar demanda para absorver o aumento. Executivos e analistas discutem no evento TECO a necessidade de ampliar o consumo interno, exportar subprodutos e buscar novos mercados internacionais, como a aviação e o transporte marítimo, para garantir a rentabilidade.

A indústria brasileira de etanol de milho passou por uma década de crescimento contínuo. O modelo de produção se provou eficaz, mostrando que é possível expandir a capacidade industrial em ritmo acelerado.

No entanto, um novo desafio surge para os próximos anos. As usinas precisam encontrar compradores para acompanhar o aumento da produção. O objetivo é manter a lucratividade em um cenário onde há muita competição por matéria-prima e uma oferta crescente de subprodutos.

  • Milho abundante: A oferta de grãos no Brasil já não é um gargalo; a área plantada de milho safrinha cresce rapidamente.
  • Queda no preço: A relação de preço entre etanol e gasolina precisou cair significativamente para estimular o consumo dos motoristas.
  • Novos mercados: O setor olha para a aviação (SAF) e navios como alternativas para absorver o excesso de produção.
  • Subprodutos em alta: A produção de ração animal (DDG) triplicou, exigindo exportações para equilibrar o mercado.
  • Investimento no Nordeste: Novas usinas no Matopiba buscam criar demanda local por grãos, apesar dos desafios logísticos.

Produção de milho garante insumo para o etanol

O primeiro painel do evento TECO, realizado em São Paulo pela Novonesis, reforçou que os fundamentos para a expansão permanecem sólidos. Henrique Brustolin, especialista do Bradesco BBI, afirmou que a disponibilidade de milho, o aumento da produtividade e o espaço para a segunda safra sustentam a tese estrutural do etanol de milho.

Os dados indicam que a oferta de milho está abundante. A segunda safra (safrinha) ocupa uma área equivalente a cerca de 37% da área cultivada com soja no Brasil. Em Mato Grosso, principal polo de indústrias, essa proporção é ainda maior. Além disso, a conversão de pastagens degradadas para confinamento de gado libera terras para a produção de grãos.

A produtividade também evoluiu positivamente. O rendimento médio do milho brasileiro praticamente dobrou desde o início dos anos 2000. O Bradesco BBI estima que 28% do etanol brasileiro produzido hoje vem do milho, somando 11,5 bilhões de litros. A previsão é de que, em 2028, essa fatia suba para 38%, correspondente a 16,5 bilhões de litros.

O desafio é encontrar quem compre o etanol

Com a matéria-prima garantida, a prioridade agora é do lado da demanda. Renato Zicardi, da Inpasa, destacou que a indústria precisa incrementar a rentabilidade buscando novos consumidores. A principal aposta é ampliar a participação do etanol hidratado na gasolina (ciclo Otto), especialmente em estados onde o uso ainda é baixo.

Porém, o histórico recente mostrou que apenas a paridade de 70% em relação à gasolina não é suficiente para gerar consumo imediato. Zicardi explicou que 2026 foi um ano difícil para o setor, pois a paridade precisou cair muito para a demanda reagir. O consumidor exige não apenas preço atrativo, mas estabilidade.

Há uma inércia no comportamento do consumidor. Quando o etanol fica mais caro que a gasolina, o motorista muda para o fóssil rapidamente. Mas, quando o etanol volta a ficar mais barato, leva tempo para que ele retorne ao biocombustível. Em São Paulo, a paridade chegou a 59% ou 60% recentemente, um dos menores níveis dos últimos anos.

Expansão para novos mercados domésticos

Para resolver o excesso de oferta, a indústria mira estados com baixa penetração de etanol. Minas Gerais é um exemplo: a participação do hidratado caiu de 40-50% para cerca de 20%. Recuperar esses mercados poderia adicionar 1 a 2 bilhões de litros à demanda nacional.

Estados como Santa Catarina e Ceará possuem participação do hidratado abaixo de 8% a 10%, indicando um enorme potencial de crescimento. Outros estados, como Rio Grande do Sul, Paraná, e as regiões Norte e Nordeste, também apresentam consumo ainda incipiente, oferecendo espaço para expansão.

Estratégia no Nordeste e desafios logísticos

A Inpasa tem ampliado sua presença no Nordeste, focada no Matopiba. Em março, a empresa inaugurou uma usina em Luís Eduardo Magalhães (BA) com investimento de R$ 1,3 bilhão. A planta processa 1 milhão de toneladas de milho e/ou sorgo por ano, produzindo 470 milhões de litros de etanol, 245 mil toneladas de DDGS e 23 mil toneladas de óleo vegetal.

O Nordeste é visto como uma oportunidade porque é deficitário em etanol, importando cerca de 30% do que consome. Isso garante preços melhores na região. Contudo, há desafios: a logística ainda está em evolução e a oferta local de grãos é menor. A expectativa é que a presença da indústria incentive os produtores locais a plantar mais milho e sorgo, que se adapta bem a climas secos.

SAF e combustível marítimo como saídas

Além do mercado interno, a indústria olha para o internacional. O etanol pode ser usado para produzir combustível sustentável de aviação (SAF) pela rota Alcohol-to-Jet (ATJ). A oferta brasileira de SAF pode chegar a 3,6 bilhões de litros em 2037, dependendo das tecnologias usadas.

No transporte marítimo, o potencial é gigantesco. O consumo global de bunker fuel é próximo de 300 milhões de toneladas. Como o etanol tem menor densidade energética, mesmo uma substituição de 5% do combustível convencional criaria um mercado capaz de absorver a produção inteira do Brasil. A chave para isso é a regulamentação e a garantia de abastecimento para armadores.

Exportação de subprodutos (DDG) é obrigatória

O crescimento das usinas também aumenta a produção de subprodutos, principalmente o DDG, usado como ração animal. A produção brasileira saltou de 300 mil toneladas na safra 2017/18 para 4,8 milhões em 2025/26. A estimativa para o ciclo 2026/27 é de 6,1 milhões de toneladas.

Com essa oferta elevada, o preço do DDG tem pressionado a capacidade de cobrir os custos do milho. Parte do valor que antes ficava com a indústria de etanol migrou para o pecuarista. Para equilibrar, o Brasil precisa exportar. O país exportou cerca de 700 mil toneladas no ano passado, deve chegar a 1 milhão neste ano e tem potencial para 1,5 milhão em 2027. A padronização e a qualidade constante são essenciais para competir no mercado internacional.