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02 de outubro de 2026

Novo sistema pode destravar venda de carne brasileira para a Europa

Geral Rastreabilidade 02/10/2026 14:42 Elfrides Júnior | Agfeed agfeed.com.br

Estudo sugere unir dados do CAR e da Guia de Trânsito Animal para criar um sistema público de rastreabilidade, atendendo às exigências europeias e recuperando exportações de carne bovina.

Com a interrupção das exportações de carne bovina brasileira para a União Europeia, causada pelas novas regras sobre o uso de antibióticos, o Brasil corre o risco de perder mais de 380 milhões de dólares (cerca de 1,96 bilhão de reais) até o final deste ano.

Essa estimativa é baseada nos dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que consideram a média das vendas para o bloco europeu entre janeiro e agosto de 2026. No entanto, o valor final pode variar devido às oscilações naturais do mercado.

  • O bloqueio das vendas para a UE pode custar quase 2 bilhões de reais ao Brasil ainda em 2026.
  • A retomada das exportações pode levar até dois anos para ocorrer, segundo autoridades europeias.
  • O sistema de rastreabilidade deve começar a valer para animais nascidos após a aprovação das novas regras.
  • Estudo da Coalizão Brasil sugere cruzar dados públicos do CAR e da Guia de Trânsito Animal.
  • O governo federal é chamado a criar uma diretriz nacional para padronizar a fiscalização em três anos.

Não há previsão de uma solução rápida para a retomada dos embarques. Segundo autoridades sanitárias do bloco europeu, o processo de adequação pode levar até dois anos.

Para que as vendas voltem a acontecer, a Comissão Europeia confirmou que é necessário um sistema completo de rastreabilidade bovina, que deve começar desde o nascimento do animal.

Desafios da rastreabilidade

Isso significa que, mesmo que o Brasil resolva todos os problemas apontados pelos europeus, apenas a carne de animais nascidos após a implementação das novas medidas poderá ser exportada.

Essa decisão ocorre em um momento de forte pressão de agricultores europeus contra a abertura de seus mercados e da assinatura do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul. Fernando Sampaio, colíder da Força-Tarefa de Rastreabilidade e Transparência da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, afirma: Hoje tem uma série de demandas que pedem esse controle da cadeia, da origem, da cadeia de fornecimento.

No Brasil, uma alternativa viável seria cruzar dados públicos, associando, por exemplo, as informações de terra do Cadastro Ambiental Rural (CAR) aos registros de movimentação de rebanhos da Guia de Trânsito Animal (GTA).

Solução baseada em dados públicos

Essa sugestão é um dos pontos centrais do estudo inédito Avançando com a Rastreabilidade Socioambiental: Panorama da Integração CAR-GTA no Brasil, publicado esta semana pela Coalizão Brasil.

É preciso uma solução de larga escala, com custo baixo e que pode ser implementada num prazo curto. Mas têm desafios: a GTA, por exemplo, não é centralizada e cada estado tem o seu banco de dados, que não é público, analisa Sampaio.

O documento destaca que o Brasil precisa se preparar para atender às atuais e futuras exigências da cadeia produtiva global.

As exigências de sustentabilidade já são uma realidade. Uma das recomendações do estudo é que esse cadastro ambiental seja inserido no cadastro do produtor na defesa agropecuária. Isso daria acesso à localização geográfica, permitindo um controle na cadeia - se está em terra pública, terra indígena, que não tem desmatamento ilegal, observa Sampaio.

Plano de ação para evitar prejuízos

Para evitar perdas imediatas, a Coalizão, que reúne mais de 400 organizações, defende que o cruzamento de dados públicos já existentes seja usado para monitorar os ciclos de criação, recria e engorda do gado até o abate.

Segundo o especialista, a conformidade ambiental virou exigência de grandes compradores, do mercado financeiro, de investidores e até do Ministério Público Federal. Assim, Sampaio explica: a ideia é de ter, principalmente, uma ferramenta de avaliação de risco e garantia de origem na pecuária, usando informações que já estão disponíveis.

O que a gente ganha é a possibilidade de atender essas demandas de mercado com um instrumento público de rastreabilidade, afirma, lembrando que o Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR) entra em vigor nos próximos meses.

Como os estados se comportam

O documento analisa a integração entre o CAR e a GTA em oito estados líderes na produção de gado: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Rondônia, São Paulo e Tocantins. Na comparação, ficou claro que, em nenhum desses estados, o principal obstáculo é a tecnologia.

Entre eles, apenas o Pará exige que o CAR esteja ativo como condição para emitir a GTA. Nos demais estados, a ligação entre CAR e GTA, quando existe, é feita por consulta técnica ou operacional (MT, MS, MG), seguindo as regras sanitárias dos importadores.

Minas Gerais, embora tenha um percentual pequeno de análises do CAR concluídas (cerca de 16% da base, segundo dados de 2025 do CPI/PUC-Rio), se destaca por criar uma estrutura forte para integrar dados entre órgãos públicos.

Proposta de piloto nacional

Para fazer o setor avançar, a rede propõe uma rota híbrida, que combina uma diretriz nacional mínima, coordenada pelo governo federal. Nessa etapa, seriam feitos pilotos nos estados, com a integração e-GTA-CAR, inclusão do CAR no cadastro da propriedade no órgão de defesa, validação automática das coordenadas da fazenda e um painel simples de risco com o histórico de entradas dos últimos 36 meses.

Esses pilotos devem ser governados por grupos de trabalho interinstitucionais, como Defesa Agropecuária, Meio Ambiente e Procuradorias, para padronizar procedimentos e alinhar o tratamento de dados. O prazo recomendado para concluir a migração é de três anos.

O produtor que consegue demonstrar toda a cadeia de produção dele, que está operando dentro da legalidade, ele vai ter uma matéria-prima pra oferecer que naturalmente vai ser mais buscada. E, com certeza, isso pode ter um reflexo no preço, diz Sampaio.

Segundo Sampaio, a Coalizão pretende levar essa proposta ao Ministério da Agricultura. Além disso, já há conversas em andamento com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, que cuida do CAR. Eles ficaram interessados nessa história.