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10 de outubro de 2026

Cotribá decide em assembleia se entra em liquidação para tentar salvar negócio

Geral Crise 10/10/2026 14:42 Italo Bertão Filho, AgFeed agfeed.com.br

A cooperativa gaúcha Cotribá, com mais de 1 bilhão de reais em dívidas, convoca associados para uma assembleia no dia 20 de outubro. O objetivo é decidir se a empresa entra em liquidação extrajudicial, medida que permite continuar operando, renegociar dívidas com bancos e suspender processos judiciais por até dois anos.

A crise financeira da Cotribá, a cooperativa agrícola mais antiga do Brasil e localizada no Rio Grande do Sul, entrou em um novo estágio crítico. Com um total de dívidas superior a 1 bilhão de reais, a entidade busca uma solução urgente para suas pendências financeiras.

Nesta sexta-feira, 9 de outubro, o novo presidente da cooperativa, Sergio Strentzke, divulgou um comunicado convocando os associados para uma assembleia geral extraordinária. O encontro está agendado para o dia 20 de outubro e tem como pauta central a discussão sobre a dissolução da Cotribá e a abertura de um processo de liquidação. Também será definida a nomeação de um liquidante, profissional responsável por conduzir esse procedimento legal.

  • A assembleia decide o futuro da Cotribá e se ela entra em liquidação
  • Liquidação extrajudicial permite continuar funcionando e renegociar dívidas
  • Bancos públicos como BNDES e BRDE são citados como possíveis novos financiadores
  • Processos judiciais contra a cooperativa podem ser pausados por até dois anos
  • Outra cooperativa gaúcha, a Piá, seguiu caminho semelhante neste ano

Liquidação não significa fechamento imediato

É fundamental esclarecer que, conforme previsto na legislação do cooperativismo, a liquidação não implica o encerramento imediato das atividades da cooperativa. Trata-se de uma medida administrativa que muda o status legal da empresa, não necessariamente o seu funcionamento operacional.

Caso a proposta seja aprovada pelos associados, a Cotribá poderá continuar operando normalmente durante o processo, mas passará a incluir a expressão em liquidação em seu nome social. Essa mudança de status abre portas para negociações diretas com credores.

Esse modelo de liquidação extrajudicial permite à cooperativa negociar um plano de pagamento de suas dívidas diretamente com os credores, sem a necessidade de aprovação judicial, diferentemente dos processos de recuperação judicial. No entanto, é importante notar que a adesão dos credores às condições propostas por esse modelo é voluntária.

A legislação das cooperativas oferece ainda um mecanismo de proteção: a suspensão de ações judiciais contra a entidade por um ano. Essa pausa pode ser excepcionalmente prorrogada por mais um ano, totalizando até dois anos de trégua nos tribunais.

Impactos em títulos de crédito e novas fontes de recursos

Se aprovada, a liquidação poderá ter reflexos diretos sobre os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) emitidos pela Cotribá nos últimos anos. Também afetará o Fiagro Cotribá, um fundo de investimento gerido pela Eco Gestão de Ativos e administrado pelo Banco Daycoval.

A assembleia definirá os poderes concedidos ao liquidante, que incluirá a possibilidade de buscar novos recursos financeiros, renegociar dívidas e negociar ativos da cooperativa. Entre as propostas autorizadas, destaca-se a contratação de empréstimos e financiamentos junto a instituições financeiras nacionais e internacionais.

O edital de convocação cita explicitamente bancos públicos, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), além do Badesul, agência de fomento do governo do Rio Grande do Sul. Contudo, a cooperativa deixa aberta a possibilidade de realizar operações com outras instituições bancárias.

O documento também prevê a contratação de financiamentos vinculados ao Fundo Operação Empresa do Estado do Rio Grande do Sul (Fundopem-RS) e ao Integrar-RS, programas de incentivo do governo gaúcho. Inclui ainda a renegociação de obrigações financeiras relacionadas a medidas provisórias.

Poderes do liquidante para vender e securitizar

Outra possibilidade que será submetida aos cooperados é a autorização para operações de securitização de direitos creditórios do agronegócio, o que seria feito por meio da emissão de novos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs).

Além das operações financeiras, os associados deliberarão sobre a concessão de poderes ao liquidante para comprar e vender bens da Cotribá. Isso inclui a realização de operações de locação e sublocação de imóveis, bens móveis e equipamentos.

Na prática, todas essas propostas buscam dar ao eventual liquidante os instrumentos necessários para administrar o patrimônio, negociar compromissos financeiros e conduzir a reorganização das obrigações da cooperativa durante o processo de liquidação.

Virada de chave após falha na recuperação judicial

A opção de liquidação extrajudicial havia sido rejeitada nos últimos meses pelos antigos gestores da Cotribá, o ex-presidente Carlos Diehl e o ex-CEO Paulo Goulart. Paulo Goulart declarou em entrevista ao AgFeed em abril: A chance de isso acontecer é zero. A liquidação te cria um passivo gigantesco e problemas para você ter acesso ao mercado de capitais.

Até então, a Cotribá vinha tentando um inédito pedido de recuperação judicial, um instrumento jurídico restrito às empresas e que não se aplica às cooperativas, que operam sob uma legislação própria. Nas duas oportunidades em que a cooperativa tentou dar entrada nesse pedido, a Justiça do Rio Grande do Sul aceitou o pleito em primeira instância, mas a decisão foi revertida em segunda instância.

Em uma decisão recente, do início de setembro, a 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul analisou um recurso apresentado pelo Banco Santander. O tribunal decidiu, de forma unânime, que a cooperativa não tem legitimidade jurídica para pedir recuperação judicial, fechando essa porta.

Agora, a Cotribá tenta seguir um caminho semelhante ao adotado por outra cooperativa gaúcha neste ano, a Piá, de Nova Petrópolis (RS). A Piá aprovou a liquidação extrajudicial após acumular pelo menos 249,2 milhões de reais em dívidas.

Trocas de comando e exposição da crise

Em paralelo a essa nova tentativa de redesenhar o futuro da cooperativa, a Cotribá passou por mudanças recentes em sua gestão. Carlos Diehl, que havia assumido o posto de presidente da cooperativa em março, deixou o cargo no fim do mês passado. Em seu lugar, assumiu o vice, Sergio Strentzke.

Foi a segunda baixa no alto escalão da Cotribá em menos de três meses. Em agosto, o então CEO da cooperativa, Paulo Goulart, que havia sido contratado por Carlos Diehl, deixou o posto após permanecer por apenas seis meses no cargo.

As dificuldades financeiras da Cotribá ficaram mais evidentes ao público há um ano, quando produtores passaram a protestar publicamente para que a cooperativa fizesse pagamentos de valores que seus cooperados tinham a receber. Em paralelo, o então presidente da cooperativa, Celso Krug, que estava no cargo desde 1993, renunciou ao cargo alegando motivos de saúde. O vice, Enio Cezar Moura do Nascimento, assumiu o cargo interinamente até que Carlos Diehl fosse eleito, já em março deste ano.

As dívidas da cooperativa gaúcha somavam 1,4 bilhão de reais em maio. Os débitos são com mais de 30 bancos e cooperativas de crédito, além de mais de uma centena de produtores rurais.