Pesquisas mostram que áreas alagadas pelo rejeito em Mariana têm mais abelhas que matas preservadas, mas isso ocorre porque apenas espécies tolerantes à sujeira sobrevivem ali, matando a biodiversidade e a polinização local.
O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, causou graves impactos ambientais na bacia do Rio Doce. Agora, os efeitos do rejeito da mineração sobre os polinizadores revelaram um cenário ecologicamente complexo e preocupante.
Ao investigar as áreas degradadas, pesquisadores constataram que os locais inundados pelo rejeito registraram quantidade de abelhas superior à encontrada em matas preservadas. No entanto, esse aumento numérico reflete um forte desequilíbrio do ecossistema, onde a vida parece abundante, mas é na verdade frágil e desorganizada.
- O que aconteceu: O estudo coletou 10.721 abelhas de 88 espécies diferentes nas áreas atingidas pelo rejeito.
- O problema: As áreas contaminadas têm 197 abelhas por ponto, mas são dominadas por espécies 'generalistas' que aguentam a sujeira.
- A ausência: As abelhas 'especialistas', que dependem de flores específicas, sumiram das áreas alagadas e só sobrevivem nas matas intactas.
- Fato curioso: Na seca, as áreas contaminadas tiveram muito mais abelhas do que na chuva, o que é o oposto do padrão natural tropical.
- A solução: Para recuperar o local, é preciso proteger as florestas remanescentes e 'afrouxar' o solo compactado pelo minério.
Quantidade não é qualidade: o engano dos números
O estudo foi conduzido por pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (Biodiv), da UFMG, Universidade de Oxford, USP, Inpa, Instituto Nacional de Biodiversidade do Equador e Unimontes. O grupo avaliou áreas cobertas por rejeitos e locais de referência para entender os efeitos da degradação. Durante os trabalhos, coletaram 10.721 indivíduos pertencentes a 88 espécies e cinco famílias diferentes de abelhas.
A média de espécies encontradas por localidade impactada foi de 14, um número estatisticamente semelhante às 12 espécies registradas nas matas de referência, que são áreas preservadas. Apesar dessa similaridade na variedade de tipos de abelhas, a abundância total dos insetos chamou a atenção imediata dos cientistas. Foram identificados, em média, 197 indivíduos por ponto de coleta nas áreas devastadas pelo rejeito de minério. Nas matas bem preservadas, esse número ficou na casa de 160 abelhas por ponto amostrado.
Generalistas dominam, especialistas somem
Dar sentido a esses números exige um olhar mais aprofundado.


Foto: acervo da pesquisa





