pt-br

07 de novembro de 2026

Brasil congela sementes raras no Peru para proteger futuro da comida

Geral Biodiversidade 07/11/2026 06:44 Lea Cunha - Embrapa Lima

A Embrapa realizou o primeiro depósito de amostras de abacaxi e mandioca silvestres em um cofre criogênico no Peru. A ação visa proteger a biodiversidade agrícola contra mudanças climáticas e garantir segurança alimentar global.

Em uma ação histórica para a preservação da vida vegetal, o Brasil, junto com Chile e Equador, fez o primeiro depósito de amostras de plantas em um cofre especial no Peru. A cerimônia ocorreu no dia 5 de novembro no Centro Internacional da Batata (CIP) em Lima. Essa iniciativa busca salvar a diversidade de plantas que não deixam sementes comuns, uma ameaça real para a agricultura futura.

A Embrapa, representada por sua presidente Silvia Massruhá, depositou 14 parentes silvestres do abacaxi e 11 da mandioca. Todas essas amostras foram criopreservadas (congeladas em temperaturas extremas) pela Embrapa Mandioca e Fruticultura, localizada em Cruz das Almas, na Bahia. É o primeiro passo do Brasil nesse cofre internacional de segurança genética.

O que você precisa saber sobre essa novidade

  • O cofre no Peru é o primeiro do mundo focado em plantas que não guardam sementes tradicionais.
  • O Brasil enviou materiais genéticos de abacaxi e mandioca silvestres da Bahia.
  • A tecnologia usada é a criopreservação, que congela os tecidos a -196 °C.
  • A ação envolve o Brasil, Chile e Equador, fortalecendo a cooperação sul-americana.
  • O objetivo final é garantir comida no futuro, mesmo com as mudanças climáticas.

Silvia Massruhá esteve acompanhada por Francisco Laranjeira, chefe da Embrapa Mandioca e Fruticultura, pela pesquisadora Fernanda Vidigal, líder do projeto de conservação criogênica, e por Paulo Melo, da Supervisão de Cooperação Internacional da Embrapa. Presenciaram o evento também Kent Nnadozie, da FAO, e Fuad Gasi, coordenador do famoso Cofre Global de Sementes da Noruega.

A presidente da Embrapa ressaltou a importância do momento: "Este primeiro depósito representa um avanço importante para a conservação da biodiversidade agrícola e reafirma o compromisso da Embrapa com a proteção dos recursos genéticos. Ao disponibilizar cópias de segurança de espécies nativas brasileiras em uma estrutura internacional, contribuímos para proteger esse patrimônio para as futuras gerações. A preservação da diversidade genética é estratégica para o desenvolvimento de cultivos mais resilientes e para a segurança alimentar diante dos desafios das mudanças climáticas".

Tecnologia salva plantas que não deixam sementes

O evento é resultado de uma parceria coordenada por vários países para salvar plantas que se multiplicam por estacas ou partes vegetais, sem sementes tradicionais. Quase metade dos 150 cultivos monitorados pelas Nações Unidas, incluindo batata, mandioca, batata-doce e banana, exigem essa conservação especial porque suas sementes morrem se secarem. O objetivo principal é garantir estratégias de segurança alimentar mundial diante das mudanças climáticas.

Abriram o evento lideranças como Vivian Polar e Simon Heck, do CIP, além de Vania Azevedo, diretora do CGIAR Genebank Accelerator, e Geoffrey Hawtin, premiado com o Prêmio Mundial da Alimentação 2024. Silvia Massruhá apresentou a palestra "Além das Fronteiras Nacionais: Embrapa, Criopreservação e o Futuro da Conservação da Biodiversidade de Culturas", destacando o papel do Brasil na preservação global.

O Plant Cryo Vault é uma instalação de alta tecnologia que armazena tecidos vegetais em nitrogênio líquido a menos 196 °C. Maarten van Zonneveld, chefe do Banco de Germoplasma do CIP, explicou: "O Plant Cryo Vault complementa o Svalbard Global Seed Vault ao fornecer uma tecnologia inovadora para salvaguardar cultivos que não podem ser conservados por meio do armazenamento convencional de sementes, nos aproximando de uma rede de segurança global". O material continua sendo propriedade dos países que o enviaram; o cofre apenas atua como guardião, sem usar as amostras sem permissão.

Brasil quer liderar a conservação na América Latina

Fernanda Vidigal, pesquisadora da Embrapa, chamou o momento de fundamental. Ela explicou: "Foi um trabalho difícil porque foi o primeiro, mas conseguimos preparar os nossos materiais para enviar. Agora vamos passar a enviar amostras mais rotineiramente e esperamos que o Brasil possa ser uma das lideranças na América Latina em relação à criopreservação". O projeto iniciou em 2025 e vai até 2029, focado em conservar germoplasma de importância agrícola.

Francisco Laranjeira destacou a honra de ser o primeiro depósito: "É uma honra que os primeiros depósitos no Plant Cryo Vault sejam de espécies nativas do Brasil (abacaxi e mandioca) e que cientistas de nossa unidade tenham desenvolvido as tecnologias que permitiram chegar a esse momento". Ele reforça que a conservação de recursos genéticos é uma questão de segurança nacional.

O projeto, estratégico para a Embrapa, visa aperfeiçoar técnicas de congelamento para plantas que não usam sementes. Além dos depósitos internacionais, será criado um criobanco na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília (DF). Participam da iniciativa as unidades da Embrapa em Clima Temperado, Uva e Vinho (RS), Hortaliças (DF), Semiárido (PE) e Tabuleiros Costeiros (SE). Vania Azevedo concluiu: "Por trás de cada amostra congelada, existem anos de colaboração científica e confiança. Estamos construindo uma rede de conservação para salvaguardar a diversidade de culturas".