Após um homem ser espancado até a morte em Copacabana, investigação revela que mais de 100 mil vigilantes trabalham de forma irregular no Rio de Janeiro, sem registro ou treinamento adequado.
Um homem de 37 anos, Cláudio Rafael Landeiro Moreira, foi espancado até a morte em Copacabana, no Rio, após ser acusado injustamente de roubar uma bicicleta. O crime ocorreu no dia 12, e um segurança clandestino, com ajuda de dois entregadores, o matou a pauladas.
O segurança preso, Davi Santos Machado, afirmou à polícia que recebia R$ 1.500 por mês para vigiar uma área da Rua Barata Ribeiro, junto com um grupo de cinco homens. Ele foi demitido após o crime.
- Mais de 100 mil vigilantes atuam ilegalmente no estado do Rio, segundo a federação do setor.
- Davi, o segurança que matou Cláudio, trabalhava há três meses sem registro.
- A polícia investiga um chefe chamado Aluísio, responsável pelo grupo de seguranças.
- Comerciantes que contratam esses seguranças também podem ser punidos, conforme a lei 14.967/2024.
- O número de profissionais com cursos vencidos cresceu 17,61% entre 2022 e 2026.
Áreas delimitadas
A Federação Nacional das Empresas de Segurança (Fenavist) informa que 53.454 vigilantes são regulares no estado, mas estima que o dobro trabalha ilegalmente, ou seja, mais de 100 mil pessoas. A equipe de Davi cobria também parte da Rua Duvivier. Investigações da 12ª DP (Copacabana) apontam que há pelo menos mais um grupo atuando perto da orla.
O delegado Ângelo Lages, titular da 12ª DP, disse que o chefe do grupo, chamado Aluísio, será convocado para depor. A polícia poderá desmembrar a investigação para identificar outras quadrilhas.
Fiscalização deficiente
Em Copacabana, é comum ver homens vestidos de preto vigiando estabelecimentos sem registro. O Sindicato dos Vigilantes do Município do Rio alerta que isso acontece em todo o estado, especialmente em áreas de intenso comércio. O número de profissionais com cursos vencidos aumentou 17,61% desde 2022.
Leandro Siqueira, diretor do sindicato, destacou que a prática é comum em Madureira, Niterói, São Gonçalo e Zona Oeste, além da Zona Sul. Para ser vigilante, é preciso cumprir requisitos como nacionalidade brasileira, idade mínima de 21 anos, curso de formação específico, ausência de antecedentes criminais e regularidade eleitoral e militar. Mas a fiscalização é deficiente, e a Delegacia de Segurança Privada (Delesp) não tem efetivo suficiente.
Rondas ou vigilância em vias públicas, mesmo sem armas, são consideradas segurança privada clandestina, exceto para casos de segurança pessoal, escolta armada e transporte de valores, que exigem autorização.
Responsabilidade de quem contrata
A polícia também identificou pelo menos três comerciantes que contrataram os serviços da equipe de Davi. Eles devem ser chamados para depor. A lei 14.967/2024 determina que o contratante verifique a regularidade da empresa e prevê sanções para quem contrata segurança irregular.
Flávio Sandrini, presidente da Federação das Empresas de Segurança, afirmou que a lei responsabiliza tanto pessoas físicas quanto jurídicas.
Ninguém fez nada
No comércio local, ninguém admite pagar por vigilância clandestina. Porteiros e vendedores disseram que Cláudio costumava aparecer na região. Um porteiro da Rua Felipe de Oliveira contou que ele tinha o hábito de sentar nas entradas dos prédios, e foi assim que os entregadores o encontraram. Eles esperaram o segurança Davi chegar para iniciar o linchamento.
O delegado Lages comentou que os agressores acreditam que estão fazendo a coisa certa, mas não estão. Ele reforçou que a polícia deve ser chamada em casos como esse.


Rua Figueiredo de Magalhães. A realização de rondas ou vigilância em vias públicas configura segurança privada clandestina (Foto: Márcia Foletto)






