Justiça do Rio decide enviar bicheiro Rogério de Andrade a júri popular por ser o mandante da morte de Fernando Iggnácio, em 2020. Decisão também inclui Gilmar Eneas Lisboa, que monitorava a vítima. MPRJ apresentou novas provas digitais que reverteram decisão anterior do STF.
O contraventor Rogério de Andrade foi condenado a responder por júri popular pelo assassinato de Fernando Iggnácio. O crime aconteceu em novembro de 2020, na região do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro. A decisão foi tomada pela 1ª Vara Criminal da Capital, atendendo a um pedido do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ).
Segundo a acusação formal, o bicheiro é apontado como o intelectual e o comandante do crime. Além de Rogério, o juiz também ordenou o julgamento de Gilmar Eneas Lisboa. Este, segundo a polícia, tinha a função de vigiar a rotina da vítima antes do ataque. Ambos permanecem presos preventivamente enquanto aguardam o julgamento pelo Tribunal do Júri.
Contexto do crime e disputas
A investigação aponta que o motivo do homicídio foi a briga pelo domínio dos locais de apostas e jogos de azar na cidade. O MPRJ sustenta que Rogério de Andrade teria dado a ordem para que a execução fosse cometida. Ele teria passado a tarefa para Márcio Araújo de Souza, um homem de total confiança dentro da organização criminosa dirigida pelo réu.
A vítima, Fernando Iggnácio, foi alvo de tiros de fuzil calibre 5,56 logo após descer de um helicóptero em um heliports particular. Os assassinos ficaram escondidos em um terreno vazio, ao lado do estacionamento, esperando por ele. Esta espera durou cerca de quatro horas até o momento do ataque.
Fernando Iggnácio tinha forte rivalidade com Rogério. A briga envolveu a propriedade do jogo do bicho, uma prática proibida, mas tolerada em alguns contextos, na Zona Oeste do Rio. A disputa nasceu após a morte de Castor de Andrade, tio de Rogério e uma das figuras mais poderosas do mundo clandestino do Rio nos anos 1970 e 1980.
Castor morreu em 1997, vítima de um ataque cardíaco. Sua herança, que incluía o controle de diversas máquinas caça-níqueis e pontos de apostas, foi dividida entre três pessoas: o sobrinho Rogério, o filho Paulo Roberto de Andrade e o genro, Fernando Iggnácio. Essa partilha gerou tensões que viraram assassinato anos depois.
Nova investigação e inversão de sentença
Em 2021, o Ministério Público já tinha processado Rogério por este crime. No ano seguinte, porém, o Supremo Tribunal Federal (STF) encerrou o processo. A corte máxima decidiu que não havia provas suficientes para manter Rogério preso ou processado naquele momento.
Com o tempo, o Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ retomou as diligências. A nova investigação coletou dados digitais importantes que ligavam Rogério ao crime e identificavam o papel de Gilmar. Com esse novo material, a Justiça aceitou a denúncia novamente em outubro de 2024.
A defesa de Rogério tentou derrubar a decisão, mas o STF, no mês de junho de 2026, negou o pedido de liberdade. O tribunal entendeu que o processo estava correto e poderia seguir adiante. A sentença que manda Rogério e Gilmar a júri popular foi assinada em 18 de agosto de 2026.
De acordo com o MPRJ, os advogados de Rogério e Gilmar pediram a revisão da decisão, mas os juízes superiores mantiveram o julgamento. A justiça avaliou que as provas digitais apresentadas pelos promotores eram válidas e suficientes para provar a culpa dos réus.
A reportagem do O Dia não conseguiu falar com os advogados de Rogério de Andrade e Gilmar Eneas Lisboa até o fechamento desta matéria. O espaço fica reservado para que a defesa apresente suas declarações em tempo hábil.
- O ex-tio de Rogério, Castor de Andrade, morreu em 1997, o que gerou a briga pela fortuna do jogo do bicho.
- A vítima, Fernando Iggnacia, foi atingida por tiros de fuzil calibre 5,56 em um heliporto do Recreio.
- Os assassinos esperaram a vítima por quatro horas escondidos em um terreno vazio.
- Uma decisão anterior do STF, em 2022, tinha encerrado o processo por falta de provas.
- A nova investigação usou dados digitais para reverter o encerramento e levar os réus ao tribunal.


Bicheiro Rogério de Andrade está detido em um presídio federal - Reginaldo Pimenta/Arquivo O DIA





