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29 de outubro de 2026

Desenhista da Polícia recria rostos digitais para identificar desaparecidos

Policia Perícia 29/10/2026 18:14 Agência Paulista de Comunicação agenciasp.sp.gov.br São José do Rio Preto SP

Um perito de São Paulo usa softwares de 3D para reconstruir o rosto a partir de ossos, ajudando a identificar vítimas de crimes e devolver respostas para famílias.

Uma nova técnica de reconstrução facial criada por um especialista da Polícia Técnico-Científica de São Paulo está ajudando a descobrir quem são pessoas que não podem ser reconhecidas pelos métodos comuns. A partir de imagens tridimensionais dos ossos do crânio, o desenhista técnico-pericial Bruno Robles Paschoal consegue desenhar digitalmente um rosto aproximado, dando aos investigadores novas chances de encontrar a identidade. O método já ajudou a Polícia Civil a identificar uma mulher em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.

A ideia nasceu da inquietação do perito diante de uma ossada sem nome encontrada durante um trabalho em Jales, também no interior do estado. Em 2020, ao pensar na possibilidade de uma pessoa ser enterrada sem que a família soubesse o que havia acontecido, Bruno decidiu estudar alternativas que pudessem contribuir para o reconhecimento de vítimas em situações nas quais os métodos tradicionais ainda não haviam apresentado resultados.

  • Um perito da Polícia Civil de SP criou um método para reconstruir rostos a partir de crânios.
  • A técnica usa software 3D e medições científicas, sem inteligência artificial.
  • Já ajudou a identificar uma mulher desaparecida em São José do Rio Preto.
  • O objetivo é dar respostas às famílias de pessoas desaparecidas.
  • A técnica pode ser expandida para outras unidades do estado no futuro.

O caso que provou a eficácia

Eu pensei que tinha que ter uma alternativa, relembra o perito, que passou a se dedicar ao estudo de pesquisas científicas, medidas anatômicas e técnicas de modelagem tridimensional. O objetivo era desenvolver uma metodologia que pudesse ser aplicada à rotina da perícia paulista.

Anos depois, o conhecimento adquirido foi colocado em prática durante uma investigação em São José do Rio Preto. A Polícia Civil apurava um caso em que partes do corpo de uma mulher haviam sido encontradas em diferentes locais. O crânio estava em avançado estado de decomposição, o que impossibilitava o reconhecimento visual, e não havia mãos disponíveis naquele momento para a coleta de impressões digitais.

O trabalho é realizado no Blender, programa gratuito de modelagem tridimensional que o perito já conhecia por sua experiência com animações

Bruno solicitou ao Instituto Médico-Legal (IML) a preparação do crânio e iniciou a reconstrução digital. Quando apresentou a imagem à equipe responsável pela investigação, os policiais perceberam semelhanças com a fotografia de uma mulher desaparecida, apresentada anteriormente por familiares.

A comparação ajudou a direcionar o trabalho investigativo. Posteriormente, exames de identificação confirmaram que se tratava da mesma pessoa.

O caso demonstrou como a reconstrução facial pode contribuir para a identificação humana, especialmente quando as condições em que os restos mortais são encontrados dificultam o reconhecimento e a utilização imediata dos métodos convencionais.

Como a ciência reconstrói um rosto

O processo começa no Instituto Médico-Legal, com a preparação do crânio e a retirada de tecidos remanescentes. Em seguida, o material passa pela fotogrametria, técnica que utiliza fotografias feitas de diferentes ângulos para criar um modelo tridimensional detalhado da estrutura óssea.

Com o modelo digital, Bruno realiza medições anatômicas e utiliza referências científicas sobre a espessura dos tecidos do rosto, considerando características do perfil biológico estimado. Essas informações orientam a reconstrução das estruturas faciais.

O trabalho é realizado no Blender, programa gratuito de modelagem tridimensional que o perito já conhecia por sua experiência com animações. A partir das referências anatômicas, ele posiciona pontos sobre o crânio e constrói digitalmente os volumes da face até chegar a uma aproximação das características fisionômicas.

Embora utilize recursos digitais, o procedimento não é realizado por inteligência artificial. A reconstrução é feita manualmente pelo profissional, com base em conhecimentos de anatomia e estudos científicos.

A técnica, no entanto, tem limitações. Características individuais, como cicatrizes, rugas, manchas e alterações provocadas por procedimentos estéticos, não podem ser determinadas apenas pela análise do crânio.

Por isso, a reconstrução facial é considerada um recurso auxiliar de identificação. A imagem produzida pode contribuir para o reconhecimento e indicar novos caminhos para a investigação, mas a confirmação da identidade depende de exames periciais, como análises de impressões digitais, DNA ou arcada dentária.

Uma alternativa para ajudar famílias a encontrar respostas

Mais do que uma ferramenta de apoio à investigação, a reconstrução facial representa uma possibilidade de reduzir a espera de famílias que procuram informações sobre parentes desaparecidos.

Em situações nas quais não há elementos suficientes para estabelecer uma identidade, a representação aproximada do rosto pode permitir novas comparações com fotografias e registros de pessoas procuradas por familiares.

Quando não tem nada, é melhor do que nada, resume Bruno, ao explicar a importância de oferecer uma alternativa quando os recursos disponíveis ainda não permitiram chegar a uma identificação.

A iniciativa também chamou a atenção da direção da Polícia Técnico-Científica. Para o superintendente da instituição, Claudinei Salomão, o trabalho demonstra como o conhecimento científico pode contribuir tanto para as investigações quanto para o atendimento às famílias.

Temos servidores absolutamente dedicados à ciência forense e também aos aspectos sociais que chegam ao nosso dia a dia. A identificação humana permite que familiares que sentem saudade e não têm respostas sobre um ente querido possam ter clareza do que aconteceu, afirmou Salomão.

Técnica poderá ser ampliada para outras unidades

A perspectiva é que a reconstrução facial continue sendo utilizada em novas situações e, após outros experimentos e validações, possa ser ampliada para diferentes unidades da Polícia Técnico-Científica de São Paulo.

Uma das frentes de desenvolvimento é o aprimoramento das referências anatômicas utilizadas no procedimento. Atualmente, as reconstruções se baseiam em estudos científicos que estabelecem medidas médias de espessura dos tecidos faciais. A produção de parâmetros específicos para a população brasileira poderá contribuir para tornar as aproximações mais adequadas à diversidade de características encontradas no país.

Para Bruno, o aperfeiçoamento da técnica representa a continuidade de um trabalho iniciado a partir de uma preocupação humana: evitar que pessoas permaneçam sem identificação e que suas famílias fiquem sem respostas.

O que começou com uma ossada encontrada em Jales se transformou em uma iniciativa que une ciência, investigação e tecnologia para ajudar a revelar identidades e oferecer novos caminhos a quem procura por um familiar.