pt-br

Prefeitura renova contrato milionário com empresa investigada por cartel na saúde

Politica Cartel 03/07/2026 09:20 Naedson Martins Pauta Diária pautadiaria.com.br

A Prefeitura de Tangará da Serra renovou um contrato de R$ 16,4 milhões com a LGI Médicos, empresa suspeita de participar de um esquema de cartel e fraudes em licitações na área da saúde em Mato Grosso. Mesmo com a justiça proibindo novos contratos com essa empresa, o acordo foi prorrogado.

A Prefeitura de Tangará da Serra renovou um contrato de R$ 16.449.587,40 com a LGI Médicos Ltda., empresa investigada na Operação Espelho por suposto envolvimento em um esquema de cartel, fraudes em licitações e organização criminosa na área da Saúde em Mato Grosso.

  • A renovação aconteceu mesmo com a justiça proibindo novos contratos com a empresa.
  • O contrato já teve três reajustes e aumentou quase R$ 2 milhões desde o início.
  • A empresa abriu uma filial na cidade e, três dias depois, venceu a licitação.
  • Investigações apontam que a empresa pode ter usado sócios de fachada para esconder o real dono.
  • A empresa é suspeita de coordenar lances em licitações com outras empresas, formando um cartel.

O Termo Aditivo n° 00034/ADM/2026, assinado em 27 de fevereiro de 2026, prorrogou por mais 12 meses a prestação dos serviços da empresa no município, estendendo a validade do contrato até março de 2027. O novo valor inclui reajustes anuais pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

A renovação ocorre enquanto ainda está em vigor uma decisão da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, que determina ao Governo de Mato Grosso e aos 142 municípios do Estado que não celebrem nem mantenham contratos com nove empresas citadas nas investigações da Operação Espelho, entre elas a própria LGI Médicos Ltda.

Empresa é alvo de ação penal por suposto esquema milionário

O sócio-administrador da empresa, o cirurgião geral Luiz Gustavo Castilho Ivoglo, foi denunciado pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) junto com outros 21 investigados.

Os réus respondem por suspeita dos crimes de organização criminosa, peculato e fraude à licitação. Na ação penal, o Ministério Público pediu o ressarcimento de R$ 57,5 milhões aos cofres públicos e conseguiu o sequestro judicial de aproximadamente R$ 35 milhões em bens dos investigados.

Apesar do processo em andamento, a empresa continua responsável pela gestão e fornecimento de serviços especializados de anestesiologia, cirurgia geral, ortopedia e ginecologia no Hospital Municipal Arlete Daisy Cichetti de Brito, em Tangará da Serra.

Contrato aumentou quase R$ 2 milhões desde a assinatura

O contrato entre a Prefeitura e a empresa sofreu três reajustes desde sua celebração.

A evolução dos valores foi a seguinte:

  • Contrato original: R$ 14.549.999,50
  • 1° reajuste (3,86%): R$ 15.111.629,40
  • 2° reajuste (4,77%): R$ 15.832.454,04
  • 3° reajuste (3,898%): R$ 16.449.587,40

Com os reajustes, o contrato teve um aumento de aproximadamente R$ 1,9 milhão em relação ao valor inicial.

Empresa venceu licitação dias após abrir filial

Documentos mostram que a LGI Médicos abriu uma filial em Tangará da Serra em 2 de junho de 2025.

Apenas três dias depois, a empresa foi declarada vencedora da licitação promovida pela administração do prefeito Vander Alberto Masson, passando a prestar os serviços especializados ao Hospital Municipal.

Auditorias apontam descompasso entre contratos e estrutura financeira

Relatórios técnicos usados nas investigações chamam a atenção para a estrutura financeira da empresa.

Embora tenha um capital social registrado de R$ 900 mil, a LGI Médicos acumulou contratos milionários com o poder público.

Somente com a Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT), a empresa teria recebido R$ 44.032.878,54 entre 2019 e 2022.

Os auditores avaliam se a capacidade financeira da empresa era compatível com o volume de contratos públicos assumidos.

Investigação apura pulverização societária

Outro ponto analisado pelos investigadores é a mudança na composição de sócios da empresa.

Entre 2023 e 2025, a LGI Médicos incluiu 16 novos sócios em seu quadro sem aumentar o capital social.

Segundo as investigações, essa estratégia pode ser uma tentativa de dificultar bloqueios judiciais sobre o patrimônio do sócio majoritário, já que os bens ficam espalhados entre várias pessoas.

Também é alvo de apuração a participação de Carine Quedi Lehnen Ivoglo, ex-sócia da empresa e também denunciada na Operação Espelho.

Ministério Público aponta atuação coordenada entre empresas

De acordo com o Ministério Público e a Polícia Civil, a Operação Espelho revelou uma estrutura empresarial que ia além de uma única empresa.

As investigações apontam que Osmar Gabriel Chemim, apontado como colíder da organização ao lado de Luiz Gustavo Ivoglo, controlava ao mesmo tempo as empresas Curat Serviços Médicos e Bone Medicina Especializada, companhias que deveriam disputar licitações entre si.

Os investigadores afirmam que havia coordenação entre as empresas participantes das licitações, formando um possível cartel para direcionar contratos públicos.

A investigação também aponta conexões operacionais com a empresa Medtrauma, também proibida de contratar com o poder público e investigada por suposto superfaturamento em outros estados.

CPI da Saúde acompanha o caso

Os desdobramentos da Operação Espelho chegaram à Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

Durante 2026, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde convocou Luiz Gustavo Ivoglo para prestar esclarecimentos sobre os contratos firmados e a estrutura das empresas investigadas.

Após a renovação contratual feita pela Prefeitura de Tangará da Serra, relatórios técnicos recomendam que o Ministério Público solicite a íntegra do Processo Licitatório Eletrônico n° 147/2022 e avalie a possibilidade de rescindir o contrato, se forem encontrados problemas previstos na Lei de Licitações e Contratos Administrativos.

A reportagem está aberta para manifestação da Prefeitura de Tangará da Serra e da LGI Médicos Ltda. Caso enviem posicionamento, o conteúdo será atualizado para incluir suas versões dos fatos.