Universidade homenageia vítimas da perseguição política nos anos 70, buscando reparar famílias e preservar a memória da democracia através de diplomas de Conclusão de Graduação.
Há 53 anos, o estudante de economia Fernando Augusto da Fonseca foi levado para uma dependência do Exército no Recife. Durante 20 dias, ele foi torturado. Enquanto isso, sua esposa grávida e seu filho de 3 anos ficaram presos em um hotel. A família só foi liberada após a morte de Fernando e a entrega do corpo.
A viagem para o Nordeste foi feita para fugir da repressão da ditadura militar. Devido à sua atuação no movimento estudantil, Fernando havia sido expulso da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), perdido o emprego e abandonado a vida na capital carioca.
Na quinta-feira (9), ele foi um dos 23 estudantes homenageados com um diploma de conclusão de graduação pela UFRJ. Dois professores da instituição, também vítimas da ditadura, foram lembrados na mesma cerimônia.
- A UFRJ entregou diplomas póstumos a 25 pessoas (23 estudantes e 2 professores) que morreram na ditadura.
- O nome de Stuart Angel Jones já havia sido homenageado anteriormente, em julho de 2026.
- A cerimônia é vista como uma forma de reparação simbólica para as famílias das vítimas.
- O reitor da UFRJ defendeu a luta diária pela democracia e a preservação da memória histórica.
- O filho de Fernando, André Luiz, recebeu o diploma e afirmou que a homenagem fecha um ciclo de dor.
Reparação simbólica para famílias
O filho de Fernando, André Luiz Araújo da Fonseca, de 56 anos, recebeu o diploma em nome do pai. Ele afirmou que o documento simboliza a realização de um sonho interrompido pelo autoritarismo do regime militar.
Essa identidade como estudante de Economia era muito forte para ele. O diploma encerra um ciclo, é como se ele estivesse atingindo aquele objetivo lá do passado. De todas as homenagens que ele já tinha recebido, essa para mim é a que tem mais peso, diz André. Ele completou dizendo que vai colocar o diploma do pai na parede junto ao seu próprio documento, orgulhando-se por ser hoje professor da mesma UFRJ.
Outra imagem da cerimônia em Rio de Janeiro (RJ), datada de 09/09/2026, mostra a solenidade. A foto, de Rovena Rosa/Agência Brasil, documenta o momento em que estudantes e professores mortos ou desaparecidos durante a ditadura foram reconhecidos pela universidade.
Memória e resistência como pilar da democracia
Durante a cerimônia, o reitor da UFRJ, Roberto de Andrade Medronho, declarou que a entrega dos diplomas representa um compromisso com a memória, a verdade e a justiça. Ele destacou que o futuro depende da coragem de lembrar o passado e de lutar pela democracia.
O amanhã depende da nossa coragem de lembrar, da nossa disposição de lutar pelo que acreditamos e, sobretudo, da nossa determinação de defender a democracia todos os dias, para que ninguém se esqueça do que aconteceu, disse Medronho.
O jornalista Franklin Martins, que liderou o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRJ em 1968, falou sobre o papel dos jovens e professores na resistência contra a repressão estatal. Ele ressaltou que a luta significou recusar a submissão mesmo diante de ataques, invasões de universidades e agressões físicas.
Martins afirmou que recuperar essa memória serve de exemplo para as atuais lutas sociais. Eu espero que outras universidades façam a mesma coisa. Para que a memória fique, para que eles sejam lembrados e semeiem a luta pela democracia pelo país, concluiu.
Lista completa dos homenageados pela UFRJ
Malu Cerqueira, atual coordenadora-geral do DCE Mário Prata da UFRJ, explicou que a diplomação tem um significado duplo: é uma reparação às famílias e uma posição política presente. Essa é a memória que a gente quer que essa universidade preserve. Não a memória de torturadores, mas a dos melhores filhos do povo, dos lutadores que enfrentam esse regime autoritário, disse ela.
Um primeiro nome já havia sido homenageado em julho de 2026: o estudante de economia Stuart Angel Jones, torturado e assassinado em 1971. O diploma foi entregue pelo reitor à irmã de Stuart, a jornalista Hildegard Angel. Os outros nomes foram identificados pela Comissão da Memória e da Verdade da UFRJ com base em relatórios oficiais.
Abaixo, estão listados os 23 estudantes homenageados nesta quinta-feira:
- Adriano Fonseca Fernandes Filho
- Ana Maria Nacinovic
- Antônio de Pádua Costa
- Antônio Teodoro de Castro
- Antônio Sérgio de Matos
- Arildo Airton Valadão
- Áurea Eliza Pereira Valadão
- Ciro Flávio Salazar e Oliveira
- Fernando Augusto da Fonseca
- Flávio Carvalho Molina
- Frederico Eduardo Mayr
- Guilherme Gomes Lund
- Hélio Luiz Navarro
- Jana Moroni Barroso
- José Roberto Spigner
- Kleber Lemos da Silva
- Luiz Alberto Andrade de Sá e Benevides
- Maria Célia Corrêa
- Maria Regina Lobo Leite Figueiredo
- Mário de Souza Prata
- Paulo Costa Ribeiro Bastos
- Solange Lourenço Gomes
- Sonia Maria Lopes de Moraes
Além dos estudantes, dois profissionais que já eram formados ou atuavam como docentes na época de suas mortes também receberam reconhecimento por seus vínculos e legados institucionais. São eles:
- Lincoln Bicalho Roque, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
- Raul Amaro Nin, pesquisador da Faculdade de Engenharia


Rovena Rosa/Agência Brasil






