Pesquisa nacional mostra que, embora a fé influence o voto, as escolhas variam conforme região, cor e escolaridade, e a maioria dos fiéis rejeita campanhas dentro das igrejas.
A pesquisa nacional Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER) junto à Quaest, analisou a conexão entre crenças e eleições. O estudo, o maior do gênero no país, ouviu 15 mil pessoas em 412 municípios. Ele mostra que pertencer a uma igreja evangélica influenciou as escolhas em 2022, mas não de forma unificada.
Os dados comprovam que, apesar do peso da fé na decisão, o grupo evangélico não vota de maneira compacta. Existem diferenças muito fortes dependendo da região, cor da pele, nível de estudo e tipo de igreja, o que derruba a ideia de um bloco único de votos comandado por líderes.
- Existem 5 pontos importantes: a fé evangélica tem peso, mas vira em várias direções; o Nordeste está mais dividido; jovens votaram menos; 90% odeiam política na igreja; e a maioria não teve orientação de voto.
- A maioria dos fiéis religiosos discorda de campanhas eleitorais dentro dos templos, preferindo separar religião e política.
- Entre os jovens de 16 a 24 anos, quem não votou ou votou nulo foi mais numeroso do que os eleitores de qualquer candidato específico.
- Os partidos políticos são a instituição que gera menos confiança entre os brasileiros, com baixa adesão partidária na maioria da população.
- A Igreja Católica é a instituição religiosa mais confiável, seguida pelas Forças Armadas e pelas igrejas evangélicas.
Diferenças regionais e sociais no voto
O estudo destaca que o efeito da fé varia drasticamente pelo país. No Nordeste, por exemplo, a disputa entre Bolsonaro e Lula entre evangélicos ficou beirando o empate, com 38% para o primeiro e 35% para o segundo. Já no Centro-Oeste, Bolsonaro liderou com folga, alcançando 58% das intenções de voto nesse grupo.
Entre os católicos, o cenário é diferente: Lula teve grande vantagem no Nordeste (64%) e no Norte, enquanto Bolsonaro liderou no Sul (48%). A cor da pele também altera o padrão: a vantagem de Bolsonaro entre evangélicos diminui entre os pretos, onde Lula atinge 33%. Entre católicos, a cor chega a inverter a preferência, com Lula liderando entre pretos e pardos.
Quando se olha a escolaridade, percebe-se que quanto maior o nível de instrução, maior a vantagem de Bolsonaro, tanto entre evangélicos quanto entre católicos.
Rejeição à política nos templos
A maioria esmagadora dos fiéis não quer política dentro da igreja. São 90% os brasileiros com religião que discordam de campanhas eleitorais dentro dos templos. Além disso, 83% rejeitam que líderes religiosos indiquem em quem votar e 82% são contra debates políticos nesses espaços.
No segmento evangélico, 87% são contrários a campanhas nos templos. A grande maioria também não recebeu orientação de voto: 78% dizem que seus líderes não recomendaram nenhum candidato no segundo turno de 2022.
Dos poucos que receberam orientação entre os evangélicos, 22% saíram com indicação para Bolsonaro e apenas 4% para Lula. Isso mostra que quase 7 em cada 10 fiéis relataram não ter recebido nenhuma orientação oficial de seus pastores.
Variação entre as igrejas e juventude
A forma como os líderes agem varia muito por denominação. A orientação de voto foi mais comum na Quadrangular (29%), na IURD (27%) e nas Assembleias de Deus (26%). Nas Batistas, foram 20%, e nas Adventistas, apenas 11%.
A IURD foi a igreja com maior proporcão de indicações para Lula (12%), provando que a diferença no voto vem do ativismo político da liderança, e não da teologia da igreja. Os dados também mostram que a juventude, de 16 a 24 anos, tem alta taxa de abstenção e votos nulos, superando a soma dos eleitores de qualquer candidato.
Fidelidade e confiança nas instituições
Quase 3 em cada 4 entrevistados (76% a 77%) dos grupos católicos e evangélicos dizem que manteriam o mesmo voto de 2022. Apenas 14% afirmam que mudariam de ideia. A relação com os partidos, porém, é fraca: entre 66% e 75% dos brasileiros não se identificam com nenhum partido.
Os partidos são a instituição que mais inspira desconfiança: apenas 3% confiam muito e 64% não confiam. A confiança institucional mais alta está com a Igreja Católica (37%), seguida pelas Forças Armadas (26%) e pelas igrejas evangélicas (26%).


Pesquisa (IA)





