As eleições de 2026 mudaram o jogo político para o agronegócio. O novo Congresso e os governadores eleitos são mais alinhados ao setor, mas dívidas, infraestrutura e clima seguem como grandes desafios.
As eleições de 2026 mudaram o cenário político do Brasil. Para o agronegócio, porém, o resultado não importa apenas para saber quem será o presidente. Também é fundamental entender como será o novo Congresso, quais governadores foram eleitos e como ficará a relação de forças que o próximo governo vai enfrentar.
O Congresso que toma posse no ano que vem terá mais políticos de direita, principalmente no Senado. O Partido Liberal (PL) terá a maior bancada, com 28 dos 81 senadores e 121 deputados na Câmara. Essa mudança na composição política deve afetar tanto as leis que serão votadas quanto a capacidade do próximo presidente de governar.
- O PL terá a maior bancada do Senado, com 28 senadores, e 121 deputados na Câmara.
- A Frente Parlamentar da Agropecuária apoiou Flávio Bolsonaro ainda antes do primeiro turno.
- Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo elegeram governadores de direita ou com diálogo com o agro.
- O endividamento rural e os juros altos são os principais problemas econômicos do setor.
- O Brasil depende muito de fertilizantes importados e o programa Profert tenta reduzir essa vulnerabilidade.
Na história recente, partidos de direita e de centro-direita costumam concordar mais com as pautas do setor produtivo. Mas isso não quer dizer que exista um bloco único ou que tudo o que interessa ao agro será aprovado automaticamente. O Congresso continua dividido, e a bancada do agro tem parlamentares de partidos, regiões e posições diferentes. Questões como meio ambiente, impostos, terra e contas públicas ainda vão exigir negociação e construção de maioria.
Essa nova configuração também vai influenciar o governo. Se Flávio Bolsonaro vencer o segundo turno, ele deve encontrar um Congresso mais alinhado e uma parte importante da bancada do agro ao seu lado. A Frente Parlamentar da Agropecuária, inclusive, declarou apoio formal à candidatura dele antes do primeiro turno.
Se Lula for reeleito, o cenário será diferente. O novo governo precisará formar maioria e negociar sua agenda com um Congresso mais à direita. Isso não quer dizer que será impossível governar, até porque o sistema político brasileiro funciona por alianças entre partidos. Mas a articulação com o Congresso será mais importante, e as bancadas organizadas ganham mais poder de negociação.
Renovação e força política nos estados
Ao mesmo tempo, as eleições renovaram os representantes do setor. Alguns políticos que sempre defenderam o agro não voltaram para a próxima legislatura, seja porque perderam a eleição, foram disputar outro cargo ou decidiram não concorrer. Por outro lado, novas lideranças entram no Congresso e alguns nomes conhecidos saíram da Câmara para o Senado. Por enquanto, o mais correto é falar em reorganização da bancada do agro, e não em perda de força política.
Os resultados nos estados confirmam essa leitura. Os principais polos agrícolas do país Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo elegeram governadores e senadores, em sua maioria, de direita, centro-direita ou com histórico de diálogo com o agronegócio.
Essa parte estadual é muito importante. Boa parte da competitividade do agro depende de decisões que não são tomadas em Brasília. Estradas, impostos, licenças, investimentos e políticas de desenvolvimento regional passam pelos governos estaduais e vão afetar diretamente os negócios do campo nos próximos anos.
Dívidas, infraestrutura e crédito
Se na política o resultado das urnas pode facilitar algumas pautas, na economia o cenário é mais complicado. O endividamento rural é uma das questões mais urgentes. Depois de safras difíceis em algumas regiões, com clima adverso, custos altos e lucro menor, muitos produtores chegam ao próximo ciclo precisando de soluções para reorganizar as dívidas e continuar tendo acesso ao crédito. Esse debate acontece com juros altos e pouco espaço no orçamento, o que limita o uso de dinheiro público para atender o setor.
Por isso, além das ferramentas tradicionais de política agrícola, o país vai precisar de mecanismos para atrair mais capital privado para financiar o agro. Melhorar as condições para investimentos e criar novos instrumentos de crédito serão partes importantes dessa agenda.
Também há desafios estruturais conhecidos. A produção brasileira cresceu muito nas últimas décadas, mas a infraestrutura e a capacidade de armazenamento não acompanharam esse ritmo. Investimentos em rodovias, ferrovias, hidrovias e portos, além da construção de mais armazéns, seguem essenciais para reduzir custos e escoar a produção.
Insumos, bioinsumos e clima
O preço e a disponibilidade de insumos completam o cenário. O Brasil depende muito de fertilizantes importados, e essa dependência ficou ainda mais estratégica por causa das tensões entre países e da instabilidade nas cadeias internacionais. Por isso, o setor vai acompanhar de perto o Profert, programa que pode estimular a produção nacional de fertilizantes e matérias-primas e diminuir a vulnerabilidade externa.
Também há expectativa sobre a regulamentação dos bioinsumos, que são produtos feitos a partir de organismos vivos usados para proteger e nutrir as plantas. O Brasil tem condições de crescer nesse mercado, mas isso vai depender de regras que deem segurança jurídica e mantenham espaço para inovação e tecnologia.
Soma-se a isso um problema sobre o qual governos e produtores têm pouco controle: o clima. Os possíveis efeitos do El Niño voltam a colocar o seguro rural e a gestão de risco entre as prioridades das próximas safras. Também cresce a discussão sobre a previsibilidade do dinheiro destinado à política agrícola.
O que esperar do futuro
É nesse cenário que o novo Congresso vai atuar. O agronegócio chega a 2027 com uma bancada forte e uma relação de forças que pode ajudar em parte da agenda. Mas também enfrenta problemas que vão exigir coordenação entre o Legislativo, o Executivo, os governos estaduais e a iniciativa privada.


Foto: Divulgação TSE, alterada por IA





