Pesquisadores da USP e parceiros alemães criaram uma vacina com vírus modificado que só se multiplica uma vez, treinando o sistema imunológico sem causar doença. A técnica pode ser usada contra zika, febre amarela e Covid-19.
Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e parceiros da Alemanha criaram uma nova forma de fazer vacinas. Eles desenvolveram um "imunizante inteligente" usando uma versão modificada do vírus da chikungunya. A grande vantagem é que o vírus só se multiplica uma vez no corpo, o que é suficiente para ensinar o sistema de defesa a criar anticorpos, sem causar a doença.
Nos primeiros testes com camundongos, uma única dose da vacina protegeu os animais. Isso mostra que, além de combater a chikungunya, essa técnica pode ser usada para criar vacinas contra outras doenças no futuro.
- A nova vacina usa um vírus modificado que se replica apenas uma vez, sem causar doença.
- Testes em camundongos com uma dose já foram suficientes para proteger.
- A plataforma pode ser adaptada para zika, febre amarela e Covid-19.
- O vírus é modificado para não se tornar infeccioso, mas ainda ativa o sistema imunológico.
- Pesquisa da USP em parceria com a Universidade de Bonn, na Alemanha.
Segundo os pesquisadores, a ideia foi criar um vírus que entra na célula e ativa o sistema imune, mas é incapaz de se tornar infeccioso. Isso é importante porque permite uma proteção forte sem risco de efeitos colaterais, podendo ser usada também em pessoas com imunidade baixa e idosos.
A pesquisa recebeu apoio da FAPESP e foi feita em parceria com a Universidade de Bonn, na Alemanha. O estudo foi publicado na revista npj Vaccines.
Estratégia inédita
Tradicionalmente, as vacinas são feitas com vírus enfraquecidos ou mortos. Mais recentemente, surgiram tecnologias como vacinas de proteína, de vetor viral e de RNA. A nova plataforma proposta usa uma estratégia diferente: um vírus que não consegue completar a maturação dentro da célula e, por isso, não se torna infeccioso.
Essa abordagem é inédita. O vírus é inoculado e só se replica uma vez, produzindo partículas imaturas que não infectam outras células. Elas servem apenas para treinar o sistema imune.
De acordo com o pesquisador, hoje existe uma vacina contra chikungunya feita com vírus atenuado, mas ela tem restrições e não é indicada para idosos, imunocomprometidos ou pessoas com algumas doenças.
Quase todos os vírus passam por um processo de maturação para se tornarem infecciosos. No caso dos arbovírus, como chikungunya, zika e dengue, essa maturação acontece no final do ciclo de replicação dentro da célula.
No vírus da chikungunya, a maturação depende da remoção de uma proteína chamada E3, que cobre a proteína E2. Quando a E3 não é removida, o vírus não consegue entrar nas células.
Dicas para editar o genoma
Para conseguir uma resposta imune eficiente, o vírus da vacina precisa se replicar ao menos uma vez. Os cientistas modificaram o genoma viral para que a enzima que remove a E3 fosse diferente. Eles usaram a enzima do vírus do mosaico do tabaco, que não existe em humanos e mosquitos.
Assim, o vírus é ativado artificialmente antes da vacina. Mas como essa enzima não está no corpo humano, o vírus não consegue se multiplicar além da primeira vez.
Depois dessa primeira replicação controlada, todas as novas partículas já nascem imaturas e incapazes de infectar outras células. Elas funcionam como antígenos, ensinando o sistema imune a reconhecer e combater o vírus.
Além disso, os camundongos vacinados mostraram capacidade de neutralizar o vírus mayaro, sugerindo uma proteção mais ampla. Como muitos arbovírus dependem da furina para se tornarem infecciosos, essa plataforma pode ser adaptada para zika, febre amarela e até Covid-19. O próximo passo é avançar com testes clínicos e adaptar a técnica para outros vírus.


Formulação ainda é experimental e foi testada em camundongos





