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Cada pa?s tem um jeito de se comunicar

Variedades Comunica?o 23/07/2026 07:20 Luzimar Collares - Comunica?o de Primeira primeirapagina.com.br

Viajar, fechar neg?cios ou simplesmente conversar com pessoas de outros pa?ses exige mais do que falar outro idioma. preciso entender diferentes formas de se comunicar.

Antes de viajar, costumamos pesquisar sobre a culinria, o clima, a moeda e os costumes do pas que vamos visitar. Mas raramente pensamos em estudar outro aspecto igualmente importante: a forma como as pessoas se comunicam. E isso faz muita diferena no somente em viagens, como tambm em qualquer tipo de interao com algum de outra nacionalidade.

Um comportamento considerado simptico no Brasil pode ser interpretado como invasivo em outro lugar. Um silncio que aqui pareceria constrangedor pode representar respeito em outra cultura. At um simples 'no' muda completamente de significado dependendo do pas.

  • O jeito brasileiro de se comunicar mais emocional e espontneo, enquanto canadenses e americanos so mais reservados.
  • Na ndia, antes de falar de negcios, preciso conversar sobre a famlia e o clima para criar uma conexo.
  • Na Malsia, muulmanos evitam dizer 'no' diretamente para no causar conflitos.
  • Na Alemanha e na ustria, interromper algum considerado falta de educao, e o silncio respeitado.
  • No Lbano, recusar um caf ou comida pode ser visto como uma falta de gentileza.

Depois de conversar com brasileiros que vivem ou viveram em diferentes partes do mundo, ficou evidente que a comunicao tambm tem sotaque cultural.

A empresria Claudia Duffield mora no Canad h 26 anos e percebeu isso logo nos primeiros anos vivendo por l. Segundo ela, o brasileiro comunica-se muito pela emoo. Demonstra facilmente o que gosta, o que incomoda, expressa opinies e sentimentos de maneira espontnea. J o canadense costuma ser mais reservado.

No significa que seja fechado ou antiptico. Pelo contrrio. um povo aberto e tolerante, apenas menos expansivo ao demonstrar emoes.

Curiosamente, Claudia conta que o jeito brasileiro de conversar com desconhecidos no costuma ser visto de forma negativa pelos canadenses. Eles apenas no reagem da mesma maneira. 'No vo retribuir na mesma intensidade, mas tambm no vo julgar', resume.

Nos Estados Unidos, a percepo semelhante. A bancria Ricarda Oakley, que vive no pas h 26 anos, diz que muitos brasileiros classificam os americanos como frios. Para ela, a impresso equivocada: 'No so frios. Apenas no se comunicam de forma efusiva como ns.'

Diferenas na forma de se expressar

Ela conta que s percebeu o quanto os brasileiros so intensos nas expresses faciais, na entonao da voz e nos gestos depois de viver tantos anos longe do Brasil. Enquanto dizemos que est 'to frio' fazendo uma expresso de sofrimento, um americano apenas informa: 'est frio'.

A diferena tambm aparece na objetividade. Nos Estados Unidos, dizer simplesmente 'no' no considerado falta de educao. Interromper algum, porm, costuma ser visto como desrespeito. Da mesma forma, falar alto, tocar frequentemente nas pessoas durante uma conversa ou invadir o espao pessoal pode causar desconforto.

'A comunicao americana muito direta. J a brasileira muito mais baseada na conexo e nas relaes', observa Ricarda.

Se em alguns pases a objetividade valorizada, em outros acontece exatamente o contrrio.

Comunicao na ndia e na Malsia

O adido agrcola brasileiro na Malsia, Dalci Bagolin, que tambm trabalhou durante quatro anos na ndia, conta que uma reunio de negcios com indianos dificilmente comea pelo assunto principal. Antes, preciso conversar sobre a famlia, sobre o clima, sobre a viagem. Existe uma espcie de aquecimento da conversa.

Mais do que isso: perguntas que muitos brasileiros considerariam invasivas como estado civil, cidade de origem ou at salrio fazem parte da construo natural do relacionamento naquele contexto cultural.

Na Malsia, porm, a situao muda novamente. O pas rene influncias chinesas, indianas e muulmanas. Enquanto empresrios de origem chinesa costumam ser mais objetivos nas negociaes, muitos malaios muulmanos evitam confrontos a qualquer custo. Dificilmente dizem 'no' de forma direta. Saber interpretar essas sutilezas pode ser decisivo em uma negociao.

Lbano, ustria e Alemanha

O mdico cardiologista Ali Kassen Omais, que viveu a adolescncia no Lbano, enxerga muitas semelhanas entre libaneses e brasileiros. Segundo ele, ambos so povos extremamente acolhedores, gostam de conversar, de celebrar, de receber visitas e de servir bem quem chega.

No Lbano, recusar um caf ou um prato oferecido pelo anfitrio pode at ser interpretado como falta de gentileza. A hospitalidade faz parte da comunicao, do jeito libans de se expressar.

J quem conhece bem ustria e Alemanha percebe diferenas bastante marcantes.

A empresria Tania Kramm viveu 13 anos na ustria e cresceu dividida entre Brasil, Alemanha, ustria e Sua, onde moram seus parentes. Filha de pai alemo e me austraca, ela explica que interromper algum durante uma conversa, algo relativamente comum entre brasileiros mais empolgados, considerado falta de educao nesses pases. Primeiro escuta-se at o fim. Depois se responde.

Outra caracterstica o respeito ao silncio. Falar alto em restaurantes, no transporte pblico ou em ambientes compartilhados costuma chamar ateno negativamente. No porque sejam pessoas frias, mas porque valorizam profundamente a privacidade e o bem-estar coletivo.

Talvez o maior aprendizado de todas essas histrias seja perceber que nenhuma dessas formas de comunicao melhor ou pior, certa ou errada. So apenas diferentes.

Quando entendemos isso, deixamos de interpretar comportamentos com os nossos prprios filtros culturais. A objetividade deixa de parecer grosseria. A reserva deixa de parecer frieza. A expansividade deixa de parecer exagero.

Em tempos de viagens frequentes, empresas globais, reunies on-line e equipes multiculturais, comunicar-se bem tambm significa saber mudar o prprio repertrio.

Como ex-professora de ingls e entusiasta do ensino de idiomas, posso afirmar que falar uma lngua estrangeira abre portas. E como comunicadora, aprendi que compreender a cultura por trs da conversa abre muito mais. Quem fala apenas o idioma entende as palavras. Quem adapta a comunicao ao contexto e cultura consegue, de fato, estabelecer conexes.